Minha história de ser mulher

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, vi esse post da Melissa de Sá no Mundo Mel e, após me emocionar muito com a sua história (que conhecia em parte, partilhamos de algumas experiências e dificuldades semelhantes, já que nos conhecemos quando adolescentes), soube que precisava também partilhar a minha história. Como disse a Emma Watson em seu segundo discurso para a campanha #HeForShe (falei dela aqui também), é preciso compartilhar nossas histórias de igualdade de gênero. E aí vai a minha.

Quando eu era criança queria ser três coisas: aventureira, como o meu pai, inteligente, como a minha irmã, e poderosa, como a minha mãe. Era assim que os via. Meus pais educaram a mim e a minha irmã com a ideia de que poderíamos ser o que quiséssemos, com a mentalidade de que devíamos estudar muito e construir nosso caráter para sermos boas pessoas e realizarmos nossos sonhos, sem passar por cima de ninguém.

Já naquela época eu fazia coisas para provar que podia fazer “coisas de menino”, como ganhar no pega-pega (e os meninos sempre colocavam o pé para eu cair; eu me ralava toda, me machucava muito) ou expor minha opinião. Minha família dizia que eu era a Mônica (da Turma da Mônica) porque eu era baixinha, meio gordinha, nervosa e com opinião forte. Sem contar que eu vivia com um coelho (um Pernalonga de pelúcia). Ah, eles também diziam que eu batia nos meninos quando eles me xingavam, como ela (e eu realmente fazia isso). Eu ficava toda orgulhosa. Ainda gosto dessa associação, a Mônica é uma das personagens que mais admiro.

Mas por que eu precisava provar tudo isso? Porque era sempre isso que eu fazia, todo o tempo. Me provar. Provar pra todo mundo, e até para mim mesma, que eu também era capaz, “mesmo sendo uma menina”.

Nunca gostei, desde aquela época, de usar saia ou vestido. Queria me ver emburrada? Me botava numa saia. Eu detestava aquilo. Me sentia mal, vulnerável, deslocada. Minha mãe dizia, como todas as mães, que eu tinha que ser mais delicada ao usar esse tipo de roupa, que tinha que tomar cuidado ao me abaixar para a calcinha não aparecer e que não podia sentar de qualquer jeito, pelo mesmo motivo. E eu não queria ter todo esse cuidado. Por que eu tinha que ter esse cuidado todo e os meninos não? Por isso era melhor usar calça, bermuda, short. Muito mais simples.

Ainda não gosto de saia e vestido. Também não gosto de maquiagem, me incomoda. Não me sinto natural.

Eu gostava de jogar videogame e sempre queria provar que era capaz de ganhar dos meninos no Street Fighter. E ganhava. Mas eles continuavam dizendo que eu jogava como uma menina, e ficavam irritados. Ainda tem alguns “meninos” que ficam, e que dizem isso.

Ainda gosto de jogar videogame. Ainda quero ganhar no Street Fighter, e bato melhor quando jogo com a Sakura ao invés do Ryu. Jogo Silent Hill, Mario (mas sou sempre o Luigi) e queria que a Zelda fizesse alguma coisa além de ser salva pelo Link. Por que ela não pode salvar o Link, só pra variar? Ninguém ganha de mim no Boxe do Wii. Parei de assistir Cavaleiros do Zodíaco porque não aguentava mais a Athena ser sequestrada. Prefiro Sailor Moon e Sakura Card Captors. E Pokémon.

Gostava de jogar futebol. Era a que marcava mais gols na aula de Ed. Física, e sou canhota com o pé. Não jogo mais, mas gostaria. Não tenho a oportunidade. É sempre difícil para mulher jogar futebol. É tudo mais complicado, enquanto os homens, você os vê todo o tempo jogando pelada (por que “pelada”?) na rua ou na praia.

Na adolescência, usava roupas maiores que eu porque tinha vergonha do meu corpo. Nunca fui magrinha, como todos queriam que as meninas fossem. Estudava muito e adorava tirar dez. Queria me ver feliz? Era receber um dez com alguma anotação do professor na prova. Ou receber um elogio de um professor. Tinha colegas que não gostavam, especialmente os meninos. Eles me zoavam por eu ser “CDF” e feia. Eu tinha uma amiga tão estudiosa quanto eu, até mais, mas ela não era zoada porque era “bonita” e se arrumava… “como uma menina”.

Também passei por alguns clichês. Me apaixonei pelo meu melhor amigo e não contei nada a ele, porque meninas não fazem isso. Ele nunca se interessou por mim. Porque eu era mais inteligente que bonita, segundo ele. Mas contei, anos mais tarde, mais velha e mais madura, a outro amigo que gostava dele, porque eu podia. Não deu certo, mas lembro com orgulho que fiz isso.

Escrevia fanfics de Harry Potter na internet e não contava pra ninguém. Demorou uns três anos até que alguém da minha “vida real” descobrisse que eu escrevia – e fazia sucesso! – e que o que eu queria mesmo, um dia, era ser escritora. Dividia, sim, essas histórias com outras amigas – que também escreviam – e que eram e diziam exatamente o que queriam naquele fórum que era um refúgio.

Fiz uma faculdade (de informática) onde havia apenas 9 meninas numa sala de 40, e somente uma professora que ensinava computação propriamente dita. Nenhuma dessas meninas era “convencional”. Todas as minhas amigas dessa época (que ainda são grandes amigas) têm peculiaridades que amo: tem aquela que fala tão rápido que ninguém entende, e sempre, sempre, fala o que pensa; tem a que sempre faz o que quer e enfrenta coisas que eu mesma tenho medo; tem a que aprendeu a não ligar para o que os outros diziam do seu cabelo e encantava todo mundo com o seu sorriso enorme; tem a que todo mundo tira sarro porque é “devagar”, mas já “processou” muita coisa difícil na vida e é uma das mulheres mais fortes que eu conheço.

Fui ser programadora e sempre ganhei menos que os meus colegas homens. Eu os via entrarem nas empresas depois de mim, fazerem a mesmíssima coisa, e ascenderem profissionalmente somente porque eram… homens. Nas reuniões, eu tinha que falar um pouco mais alto e mais grosso para me ouvirem, e demorava muito mais (às vezes, demorava até que a merda que eu previ estivesse feita) para eles aceitarem o que eu dizia.

Gosto de flores e de chocolate, mas gosto de churrasco e de beber cerveja também. Bebo porque gosto de beber. Mas não dirijo, tenho medo do trânsito brutal das ruas. Ando de bicicleta e sujo minhas mãos quando calibro o pneu ou quando a corrente sai do lugar. Gosto de nadar e divido a raia com homens.

Casei aos 22 anos porque queria ficar perto do homem que amo. Ouvi um monte de baboseira. Ouvi o típico “você tá grávida?” (e eu ainda não tenho filhos e nem sei quando quero um, quero, mas não sei quando) e ouvi o “você tá muito jovem” e “por que casar, as pessoas não casam mais, com igreja e festa! É um desperdício.” Porque eu queria. Porque sou feliz assim. Não é o suficiente?

Meu marido divide comigo as atividades domésticas. Lava muitas vezes a louça que deixo formar uma torre torta na pia. Lava o banheiro, enquanto eu passo aspirador e pano na casa. Cozinha comida salgada muito melhor que eu. Fez o frango no Natal. Mas também é um programador excelente, faz academia, lê um monte de livros (às vezes ficção científica, às vezes romances que eu torço o nariz), bloga comigo no mesmo blog literário. Tem o sonho de ser pai. E apoia incondicionalmente o meu sonho de ser escritora. Diz que  devo ser quem eu quiser ser. É meu parceiro e companheiro e meu melhor amigo.

Frequentemente eu pensava “e se eu fosse homem, não seria mais fácil?”. Ainda penso isso, às vezes, e toda vez que penso fico triste, porque gosto de ser a mulher que sou. Não a mulher “feminina” que dizem que deveria ser, mas a mulher que sou. Penso nisso quando um aluno despreza o que digo em sala de aula porque sou mulher, e jovem. Penso nisso quando uma aluna presta mais atenção ao meu corpo do que às minhas orientações. Penso nisso quando ainda preciso provar que consigo ganhar no videogame. Penso nisso quando meu livro de terror não tem tanta credibilidade frente a alguns leitores quanto o livro de terror de um homem.

Eu me provava e continuo me provando. Nunca vou deixar de provar, para os outros e para mim mesma, que sou capaz. Mas sonho com o dia em que as mulheres não vão precisar provar mais nada e vão ser, apenas e tão somente, pessoas.

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Comments
4 Responses to “Minha história de ser mulher”
  1. É horrível termos que ficar provando coisas o tempo todo. Apenas o fato de sermos mulheres deveria bastar. Porque precisamos provar a todo momento que somos capazes? Defendo o direito de escolha. Eu escolhi ser mãe, dona de casa, escritora e blogueira. Isso me faz bem. Espero que, um dia, não precisaremos provar nada para ninguém.
    Beijinhos

    Vidas em Preto e Branco 

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    • Karen Alvares disse:

      Exatamente. A todo instante, desde meninas, precisamos provar do que somos capazes. E nunca deixaremos de fazer isso, ao que parece. Também acho liberdade é as mulheres escolherem o que bem entenderem fazer: donas de casa ou empresárias, escritoras ou médicas, mães ou não. Hoje vi uma notícia horrorosa sobre franceses puxando véus de garotas islãs; até mesmo o uso do véu, para elas que acreditam nisso, é uma escolha, e elas precisam ser livres para isso! Assim como as mulheres também precisam ser livres para usar as roupas que desejarem!
      Beijos, linda! Obrigada pelo comentário.

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  2. Kakazinha, que ótimo texto! E imagino que essa história seja parecida à história de tantas outras meninas. Infelizmente temos um longo caminho a percorrer ainda. Mas nós vamos. Tem tantas escritoras no cenário nacional agora… Sinceramente, isso me dá um pouco de esperança.

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    • Karen Alvares disse:

      Obrigada, Mel! Foi o seu texto que me inspirou! 🙂
      Também me animo com as nova escritoras no cenário nacional. Mas infelizmente ainda é um pouco complicada a aceitação do público quando as mulheres saem dos gêneros “ditos para mulheres”, o que é uma baboseira danada.

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