Porque sou feminista (e porque você é ou deveria ser)

Hoje não vou falar sobre livros, nem sobre textos meus (bem, talvez um pouco, é difícil para uma viciada em livros como eu não falar deles). Na verdade, o que eu quero mesmo falar aqui hoje é sobre uma palavra; eu simplesmente a considero uma das melhores palavras em nosso vocabulário, mas muita gente por aí anda distorcendo a pobre coitada, pegando até mesmo birra, raiva e preconceito dela.

A palavra é feminismo.

Calma, não pare de ler o texto só porque apareceu esse palavrão aí em cima. Não pare por aqui pensando que vou começar a rasgar sutiãs e dizer que odeio os homens. Muito pelo contrário, eu adoro os homens, amo incondicionalmente meu marido, meu pai é meu melhor amigo e um modelo de vida, tenho vários amigos queridos e meu escritor favorito é um homem. Só que, a diferença, é que para mim eles são, antes de homens, pessoas. Ser feminista não quer dizer que você odeie os homens (gostaria de saber de onde saiu essa ideia absurda). Portanto, continue a ler mais um pouquinho.

Segundo a famigerada Wikipediafeminismo é:

Feminismo é um movimento social, filosófico e político que tem como meta direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores baseados em normas de gênero.

Ok, é isso, mas eu prefiro definições como a seguinte, que Emma Watson (sim, a atriz que interpretou Hermione Granger, mas ela é bem mais que isso) declarou em seu discurso na ONU, no último domingo, dia 21. Não foi apenas ela que já definiu feminismo dessa maneira, mas vou utilizar suas palavras aqui:

Para registro, feminismo, por definição é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os sexos.

E então, agora que você leu a definição acima, o que achou? Ela não é tão absurda assim, certo?

feminismo-ideia-radical

Se você é mulher e quer ganhar o mesmo salário que seus colegas homens ao realizar o mesmo serviço, se você quer ter a mesma oportunidade que os homens de conseguir um emprego, passar em um concurso ou obter reconhecimento, se você quer votar, dirigir, usar a roupa que desejar ou simplesmente dar sua opinião em uma mesa de bar (ou até na internet) e ser ouvida como um ser humano, racional e pensante, bem, minha amiga, você é feminista.

Agora você, homem, que está aí do outro lado lendo esse texto. Se você acha que sua namorada/esposa/irmã/mãe/filha/amiga/etc. também merece tudo isso acima e, ainda, se você também tem sentimentos, fica triste quando algo ruim acontece, chora em velórios e em finais tristes de livros ou filmes, emociona-se ao ver um belo pôr do sol ou um recém-nascido, sente-se frágil de vez em quando, gosta de trocar abraços, aprecia segurar a mão de alguém – seja uma mulher, seu filho ou seu pai – e no seu íntimo sabe que nem todo toque é sexual e que lágrimas às vezes simplesmente transbordam de um coração triste… bem, meu amigo, tenho uma novidade pra você: você também é feminista.

feminista homem

Para ser feminista não é preciso odiar nada nem ninguém. Na verdade, você não deve odiar nada nem ninguém, isso faz mal (para o coração e até para a pele). Há muitos feministas aí que negam que o são, mas na verdade são. Se o assunto surge e você diz que é feminista, há pessoas que torcem o nariz e já acham que você não gosta de transar (se você é mulher). Se você é homem, é provável que digam que você é homossexual (já conheci homossexuais feministas, e outros que assim como alguns héteros diziam que não eram e torciam o nariz). Mas, no fim, se você atende aos requisitos lá de cima, você é feminista, mesmo que negue. Conheço homens incríveis (e mulheres também, todos feministas sem saber), que negam veementemente que são feministas, falam que esse tipo de mulher (como se fosse um “tipo”) são extremistas e, geralmente, homossexuais (porque tudo volta ao sexo). Bem, aqui vai outra novidade: eu gosto de transar com meu marido e sou feminista.

Mas por que eu estou dizendo tudo isso? Porque me espanta ver movimentos tão bacanas como o HeForShe, promovido pela Emma Watson, agora embaixadora da boa vontade na ONU, serem ignorados ou ridicularizados. Porque me espanta ainda vivermos em uma sociedade onde a mulher é marginalizada, tratada como inferior, e esse comportamento ainda é aceito como padrão. Você pode dizer “não, não é assim, você está exagerando”, mas toda vez que alguém diz “e a louça?” para uma mulher, toda vez que riem de uma garota na internet e fora dela por ser gamer, toda vez que alguém diz que você “corre como uma menininha”, toda vez que alguém torce o nariz para um livro de horror escrito por uma mulher, toda vez que alguém prefere ler o romance que uma mulher escreveu porque mulheres são “melhores em romances água com açúcar”, toda vez que alguém diz “que uma menina é pra casar”, toda vez que alguém fala que sua chefe está nervosa porque “está de TPM ou está precisando”, toda vez… ah, são tantas as vezes.

Toda vez que uma mulher é estuprada (agora mesmo, enquanto você lê esse post) e dizem que a sua roupa era curta demais. Toda vez que uma mulher é agredida, muitas vezes por seu parceiro, física ou emocionalmente. Toda vez que uma mulher é chamada de vadia por não ser virgem ou por ter tido vários namorados ao longo dos anos. Toda vez que um homem diz que uma mulher não entende nada de futebol (ou que não sabe o que significa a droga de um impedimento, eu sei o que significa, mas isso não me faz uma pessoa melhor ou pior, nem mais inteligente ou burra). Toda vez que uma menina (ou uma garota, ou uma mulher) ouve de alguém (até mesmo de mulheres) que ela precisa ser mais “feminina” ou “delicada”.

Tantas vezes.

Feminismo-2

Eu acho que sempre fui feminista, apenas houve uma época em que eu era jovem demais para conhecer essa palavra do nosso vocabulário. Mas, quando a descobri, me descobri feminista. Nunca entendi porque os meninos na escola riam de mim porque eu era “gordinha” (e meninas não podem ser gordinhas, tem que ser bonecas, certo?). Nunca entendi porque eu precisava usar saias e maquiagem para “parecer uma menina”. Nunca entendi porque uma vez, no trabalho, uma pessoa me chamou de “filha da puta”; quer dizer, por que não “filho do puto”, certo? Nunca entendi porque “vagabunda” e “vagabundo” tem significados diferentes, ainda que sejam a mesma, apenas tenham uma flexão diferente de gênero. Nunca entendi porque um colega de trabalho meu que fazia exatamente o mesmo serviço e tinha menos experiência e formação foi promovido. Nunca entendi porque eu ganhava menos que os outros dois programadores que trabalhavam comigo e faziam exatamente o mesmo trabalho. Nunca entendi porque uma personagem minha foi taxada como dotada de um “puritanismo irritante”, só porque ela se assustou com um beijo forçado em uma balada. Até hoje não entendi porque em uma resenha tentei “reforçar a posição de uma personagem como minoria” só porque a descrevi como mulher, negra, nerd e acima do peso. Talvez seja porque não existe ninguém, ninguém, que tenha esse perfil. É muito mais fácil encontrar uma mulher, branca e magra, correto? Elas aparecem aos montes, de fato. #sqn

Diante de tudo isso, como eu não poderia ser feminista? Não sei vocês, mas eu gosto de ser reconhecida. Gosto quando faço um trabalho e alguém reconhece que ele foi válido, não importa se foi a resolução de um problema no código do software, se foi porque consegui explicar com sucesso a uma pessoa como fazer uma fórmula SE no Excel, se foi por cozinhar um bolo saboroso ou se foi porque escrevi um bom texto. No entanto, na sociedade que vivemos, é muito mais provável que uma mulher seja reconhecida por fazer bolo do que pelo resto. E ainda ouça aquela famosa frase “essa aí já pode casar”.

Mas como ajudar? Como fazer alguma coisa? Você, eu, somos só pequenos pontos no universo, certo? Nós não somos a Emma Watson, uma atriz mundialmente conhecida. Bem, a gente pode simplesmente começar fazendo pequenas coisas.

– Questionando ao seu chefe porque aquela sua colega de trabalho ganha menos. Assim, de boa, sem estresse. Só questionar;
– Elogiando uma mulher por ela ter resolvido um problema. O de matemática, pode ser, ou qualquer outro da vida;
– Elogiando uma menininha não por ela ser “linda” e “fofa”, mesmo que ela seja, mas por ela ser corajosa ou inteligente ou esperta;
– Se a mulher não merecer elogios e você quiser xingá-la, xingue. Mas não a chame de “vaca”, “vadia” ou “vagabunda”;
Leia livros de autoras, mesmo que não sejam romances. Mas leia também os romances. E leia romances escritos por homens. Melhor, esqueça o nome do autor, compre pela sinopse, pela capa ou porque achou o livro interessante;
– Antes de chamar aquela personagem da sua série favorita de “vaca”, pense se ela não foi coerente nas suas atitudes e se você não faria o mesmo que ela naquela situação. Ah, e pense nela como se fosse um homem: ele seria um cafajeste se fizesse o mesmo que ela?
– Se vir uma mulher bonita na rua, admire, mas não torça o pescoço para olhá-la. Muito menos assovie. Por tudo que é mais sagrado, não fale gracinhas para ela;
Não seja condescendente com uma mulher. Não diga que algo é “coisa de mulher” ou “de mulherzinha”;
– Respeite.

São tantas coisas que não cabem em uma lista. Mas é bem por aí. E eu acredito, de coração, que você aí já faça quase tudo isso, senão tudo.

E aí? Você é feminista?

Aproveite e leia o discurso da Emma Watson na ONU. Vale muito a pena. E visite também o site do HeForShe.

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Comments
6 Responses to “Porque sou feminista (e porque você é ou deveria ser)”
  1. Oi, Karen.
    Que texto fantástico! Fantástico, mesmo. Essa aversão ao feminismo também me incomoda bastante, mas o mais lamentável, na minha opinião, é que existem muitas mulheres machistas, que corroboram o que homens estúpidos defendem. Eu sou feminista, e não tenho vergonha de dizer isso. Aqui em casa, a cozinha é minha, não gosto de futebol e não entendo de futebol; sei bordar e faço croché, coisas que minha esposa não faz e nem tem interesse em fazer. E acho que não há nada que um homem faça que uma mulher não possa fazer igual ou melhor.
    E eu adoro ler livros de autoras brasileiras.

    Curtido por 1 pessoa

    • Karen Alvares disse:

      Exatamente, Samuel!
      Aqui em casa meu marido não joga futebol, nem liga muito, eu sou bem mais fanática e jogava quando era mais nova. Nada disso nos faz “menos homens ou menos mulheres”, esse tipo de rótulo já encheu. Eu e ele gostamos de cozinhar, mas às vezes eu estou sem nenhuma vontade e é ele que faz tudo. E daí?
      O machismo, além de machucar as mulheres, também machuca os homens. Homem também pode cozinhar, chorar, abraçar, beijar, assim como mulheres também podem trabalhar, carregar peso, darem opiniões.
      O machismo de algumas mulheres também me irrita. Eu vejo tanto homens quanto mulheres com aversão ao feminismo, como se ele fosse uma praga, e muitas vezes essas pessoas são feministas sem saber. Há muito preconceito e desinformação.
      Obrigada pelos elogios, você é muito legal comigo! hahaha 🙂

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  2. Lívia Helena Camilli Brondi disse:

    Oi, Karen.

    Concordo muito com você! Acredito que as pessoas tem que construir novos paradigmas, não existe coisa de homem e coisa de mulher. Não podemos permitir a se pense nas relações de gênero com relações de submissão e dominação. as relações são simbióticas, uma via de mão dupla que proporciona o que chamamos comumente de ser humano.

    Amei o seu texto e o pronunciamento da Emma Watson! Sobre isso, sempre acreditei que as celebridades deveriam se engajar e ela está no caminho certo, porque se a pessoa é formadora de opinião ela deve ter mesmo opinião sobre as coisas.

    Seu blog já está na minha lista de favoritos!!!

    Beijos históricos!

    Liz.

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    • Karen Alvares disse:

      Oi Liz, tudo bom?
      Muito obrigada pelo comentário! Assino embaixo de tudo o que disse nele. Todos somos seres humanos, todos temos direitos, deveres, habilidades e sonhos. Ninguém é menor que o outro por meras questões de gênero, raça ou preferência sexual.
      Também fiquei muito feliz com o pronunciamento da Emma. Ela está realmente fazendo um bem para a humanidade utilizando sua influência para falar de um assunto importante e muitas vezes negligenciado.
      Beijos e espero mais suas visitas por aqui
      Karen

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  1. […] contra um ser humano apenas por ele ser do sexo feminino, mesmo na nossa suposta época moderna. E aqui arrisco uma opinião pessoal: feminismo é essencial e, se você acha que não é feminista, …, ou será que você não concorda, por exemplo, que uma mulher pode e deve receber o mesmo salário […]

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  2. […] contra um ser humano apenas por ele ser do sexo feminino, mesmo na nossa suposta época moderna. E aqui arrisco uma opinião pessoal: feminismo é essencial e, se você acha que não é feminista, …, ou será que você não concorda, por exemplo, que uma mulher pode e deve receber o mesmo salário […]

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