Sufocando [Um Ano de Medo]

Ele me olhava.

O tempo inteiro.

Durante as aulas, no intervalo, quando estávamos praticando pênaltis na aula de Educação Física e – o que mais me arrepiava – na hora da saída também.

Ele não era um cara feio como são os maníacos que a gente vê nos filmes. Muito pelo contrário, ele era bem bonito. As garotas eram apaixonadíssimas por ele. Elas dariam tudo para ter uma noite com ele.

Eu não.

Ele podia ser bonito, mas era muito, muito estranho. E o seu olhar em cima de mim… como se eu fosse um pedaço de carne… era amedrontador.

Confesso que tinha medo dele. Aquilo começou a tomar minha cabeça e, à medida que o tempo passava, comecei a ficar mais e mais perturbada, tensa, assustada a todo o tempo e meus pais começaram a perceber as minhas notas caindo.

Eu não conseguia prestar atenção às aulas. Eu só conseguia pensar no olhar dele penetrando minha nuca, meu corpo, minha alma.

Ele era popular. Como eu já disse, tinha várias garotas a seus pés. Os garotos eram camaradas com ele. Os professores o achavam inteligente e educado.

Somente eu percebia que tudo aquilo era forçado demais para ser verdade.

Mas ninguém acreditaria em mim. Ninguém. Porque eu é que era a esquisita da classe, talvez até da escola. Eu e minhas camisetas largas, meus jeans esfarrapados, meu tênis surrado. Eu que não usava maquiagem e não me preocupava muito com o meu cabelo.

Por quê? Por que ele olhava logo para mim, logo para a maior deslocada da sala, se eu nem me arrumava, se eu nem era bonita?

Mas ele olhava.

No começo eu achava bonitinho. Até fiquei ansiosa, pensando que em algum momento ele viria falar comigo. Todo mundo fica feliz quando os outros gostam de você, não é? Mas ele nunca, nunca veio puxar assunto. Só ficava lá, me olhando, como se visse através do meu espírito, como se lesse meus pensamentos. Aquele olhar era de gelar os ossos.

Ele não era normal.

Naquele dia eu estava saindo da escola. Caminhei até uma das ruas próximas ao colégio, onde tinha amarrado minha bicicleta em um poste. Em algum momento percebi que alguém me observava, porém, quando me virei, já era tarde demais.

Ele estava ali. Olhando para mim.

Muito perto, muito perto, muito perto.

– Oi. – eu disse estupidamente.

Ele não disse nada. Apenas sorriu sinistramente e segurou meus braços.

– Ei!

Aconteceu muito rápido. Ele me jogou no chão e prendeu meu corpo com suas pernas. Ainda segurava meus braços acima da minha cabeça. Começou a me beijar no pescoço e lamber e eu só sabia que aquilo era nojento, era horrível, e eu tinha vontade de vomitar.

Gritei, mas ele cobriu minha boca com uma das mãos. Eu me debatia loucamente, enquanto, com os próprios dentes, ele começou a rasgar minha blusa. O barulho do tecido se rasgando era ensurdecedor. Ele apertava tanto a minha boca que eu estava começando a sufocar.

Sufocar sufocar sufocar.

Ele começou a lamber meus seios, mordendo, machucando. Eu queria gritar, respirar, mas não conseguia, não conseguia, e ele continuava lá, e eu sabia o que ia acontecer, eu não queria, não não não não não era o que passava pela minha mente. Senti as lágrimas escorrendo dos meus olhos.

Sufocando sufocando sufocando.

Ele soltou uma das minhas mãos para poder calar minha boca. Estava distraído demais arrancando minha calcinha e puxando com a outra mão o zíper da calça. Eu estiquei o braço.

Mais um pouco mais um pouco mais um pouco.

Senti meus dedos ao redor da corrente da bicicleta que eu tinha destravado. Era uma corrente de metal, cheia de argolas. Meu pai tinha me comprado, disse que era para a bicicleta não ser roubada…

Ele está me roubando roubando roubando de mim.

Ele estava encontrando dificuldades para abrir o zíper. Soltou meu outro braço.

Foi um erro.

Eu não pensei não pensei não pensei duas vezes.

Apenas agi.

Enrosquei a corrente da bicicleta ao redor do seu pescoço. Ele parou o que estava fazendo e ergueu os olhos, completamente pego de surpresa, havia raiva, havia ódio, havia morte em seus olhos.

Sufocar sufocar sufocar.

Eu apertei a corrente. Tinha que fazê-lo, ele não podia se livrar, se ele conseguisse escapar eu morreria, sei que morreria, então tudo estaria acabado.

Ele desistiu de me segurar ou me bater e começou a segurar a corrente em seu pescoço, tentando arrancá-la, tentando puxá-la, mas eu estava determinada, precisava me salvar, então puxei mais e mais forte, até que seu rosto começasse a ficar roxo, e nem assim eu parei, puxei e puxei e puxei, e ele parou de se debater, as mãos caíram ao redor do corpo, seus olhos se arregalaram, a boca aberta em um ângulo estranho, errado, procurando o ar que não existia.

Ele caiu em cima de mim, em cima, em cima, como ele estava antes, em cima.sufocando2

Eu vomitei.

Ele não se mexeu.

Eu empurrei seu corpo para longe de mim.

Ele não se mexeu.

Era pesado.

Ele não se mexeu.

Mas eu consegui.

Ele não se mexia não se mexia não se mexia mais.

Eu tirei a corrente do seu pescoço. Havia argolas tatuadas na sua pele, vermelhas, apertadas, sufocantes.

Subi na bicicleta, trêmula, mas inteira, e saí pedalando.

Eu o deixei para trás.

E ele não se mexia.

Conto originalmente publicado em Um Ano de Medo

capa

“Sufocando” é um dos contos publicados na antologia Horror em Gotas, à venda na Amazon por apenas R$ 1,99. Para adquirir o livro, clique aqui.

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