O Reino da Morte [Um Ano de Medo]

Era uma vez um reino.

O reino não era um reino comum, como os reinos do norte e do sul. Era negro e vazio. Nele vivia somente o Rei. Sozinho. Não tinha nome, apenas era chamado O Rei, O Soberano, O Grande.

O Impiedoso.

Sentava-se majestosamente em um rico trono feito de corpos e sangue.

Seus súditos eram fantasmas. Seu palácio era a Loucura.

Seu reino se chamava Morte.

Até o dia em que seu conselheiro lhe disse que a própria Morte, sim, a mulher de asas negras e olhos famintos, estava chegando. Para o Rei.

“Impossível!”, dissera o Rei.

“Ela está chegando. Como chegou para todos nós… quando Vossa Majestade nos matou.”, foram as palavras do conselheiro. Sua cabeça estava literalmente aos pés do Rei – debaixo deles.

“NÃO!”, foi a resposta do Rei. “Eu ordeno!”

Mas a Morte não poupa suas vítimas, mesmo que ela seja Seu Próprio Rei. A Morte não é governada a não ser por Sua Própria Majestade.

E naquela noite escura e solitária, quando apenas os ventos do norte sopravam gelados e o sussurro dos fantasmas era sua única reino_morte2companhia, o Rei sentiu as mãos de todas as almas que tirou a vida em torno de seu pescoço, como cordas finas penetrando na sua carne. O sangue real e azul jorrava aos borbotões.

Porém, a Morte consegue ser ainda mais impiedosa. Para alguns, Ela não é suficiente. Havia ainda um último e solitário resquício de amor no coração endurecido do Rei e a Morte, ardilosa, aproveitou-se disso.

O Rei tinha uma filha, a Princesa. Era a última coisa que amava no mundo e, portanto, trancou-a na torre de seu castelo, para protegê-la do mundo cruel e frio que havia do outro lado daquelas paredes. Foi então que a Morte se apercebeu da pobre moça e, atentando à oportunidade única de punir o Rei com a crueldade que ele mesmo dispensava às suas vítimas, a Morte tomou a vida da Princesa em um único sopro.

“Não!”, o Rei implorou, esquecendo-se de sua arrogância, mas era tarde demais para arrependimentos.

A última visão do Rei foi Dela, sua verdadeira Rainha, a Morte, levando o seu último sopro de humanidade. A Princesa caiu a seus pés, sem vida, enquanto a Morte gargalhava com seus olhos negros e profundos, suas asas cor de escuridão, sua respiração rascante, sua calma sonolenta, suas garras pálidas ao redor do corpo do seu amor. A Morte, como todos sabiam naquele reino, levava os bons e se alimentava dos maus até o último osso, até a última gota de sangue. Seu prato preferido era amargo como a maldade.

E aquela noite ela estava faminta.

Conto originalmente publicado no Projeto Um Ano de Medo.

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