Monstro [Um Ano de Medo]

Se havia alguma coisa da qual se orgulhasse em si mesmo era de sua prodigiosa memória. Lembrava-se de fatos, datas, cenas, nomes e rostos como ninguém. Por esse motivo, talvez, fosse advogado; tinha muitas coisas a memorizar.

Porém, havia essa lacuna nas suas lembranças. Essa, que aparecia de vez em quando, sem bilhete nem aviso, instalava-se na sua cabeça e apagava suas memórias daquelas noites, e tudo o que sentia no dia seguinte era um enorme vazio.

E a dor, que sempre lhe acompanhava depois dos apagões.

Já tinha procurado vários médicos, até mesmo especialistas em outros países, mas aparentemente não havia nada de errado com ele. Tomou medicações, vitaminas, mudou a alimentação, mas o fato é que o vácuo continuava ali, vigilante, esperando sua noite, seu momento, como um felino à espreita do alimento.

E tudo o que restava para ele no dia seguinte eram a dor, o sangue e a manchete no jornal da manhã. Mais um. E ele não conseguia se lembrar de mais nada.

Mas havia ainda essa última memória que não se apagava. Ele achava que aquele dia tivesse acontecido em março daquele ano, talvez. Não tinha certeza. Isso lhe dava ainda mais raiva, porque ele sempre teve certeza de tudo e agora não tinha de mais nada. Era como se as lembranças que ainda lhe restavam estivessem se fragmentando, deslizando por seus dedos como água fria e escorregadia.

No entanto, o rosto daquela mulher ainda permanecia lá, no fundo da sua mente e o revisitava até mesmo acordado, mas sempre em seus pesadelos.

Estava chovendo. E muito. Era uma noite solitária e triste de março, ou pelo menos era o que ele achava. Nada daquela loucura tinha começado ainda. Ele era normal, com sua vida normal, seu carro esporte de luxo e uma pilha de casos e livros jogados no banco do passageiro. Ainda tinha uma esposa, sim, lembrava-se bem disso, mas quase nunca a via. O trabalho o consumia e ele consumia o trabalho. Era tudo que precisava. Ela poderia esperar.

Parou num sinaleiro na Avenida Pacaembu, batucando no capô. A chuva batia com insistência no para-brisa, mal dando tempo do limpador fazer seu trabalho. O barulho da tempestade era tão alto, que ele mal conseguia ouvir a música que tocava no rádio; inclinou-se, aproveitando o farol vermelho, para aumentar um pouco mais o som. Era uma de suas divas favoritas do jazz que cantava. Ergueu a cabeça satisfeito quando conseguiu apreciar, finalmente, aquela voz rouca, e foi necessário apenas um segundo para que acontecesse.

monstro1_1Ao seu lado, também parado no sinaleiro, estava outro carro. Ele primeiro viu uma mulher dirigindo, jovem e bonita, mas com a aparência cansada e mal tratada. Ela parecia nervosa, quase incomodada e, como ele, também batucava, mas no volante. No entanto, quem realmente importava estava sentada no banco do passageiro.

Essa mulher era bem mais velha. Parecia ter tantos anos que os mesmos seriam impossíveis de se contar no calendário. Tempo. Ela dava a sensação do tempo passando, do tempo escoando como a areia em uma ampulheta. E ela lá, no meio disso tudo, impenetrável, imutável, inabalável. Tinha os cabelos vermelhos como labaredas e usava pulseiras douradas nas mãos magras demais, cheias de anéis, com as quais segurava um embrulho de cobertores. As roupas eram maltrapilhas, mas coloridas, predominando sempre o vermelho. Ela dava a impressão de ter sido forjada no próprio fogo ardente.

E ela olhou diretamente para ele. Bem no fundo dos seus olhos. Poderia ter durado apenas um segundo, mas naquele segundo, não conseguiria nem que tentasse desviar o olhar. Estavam conectados. Foi a primeira vez que ele sentiu aquela dor. Pensava ter visto nos olhos da mulher as chamas em que fora feita. Talvez tivesse sido apenas imaginação – por mais que isso fosse algo que ele não aprovasse. Ou sua cabeça lhe pregava peças?

Mas de uma coisa ele tinha certeza. A mulher pronunciou apenas uma palavra, só uma, em silêncio, apenas com o movimento dos lábios. Ela juntou com força os dois lábios, abriu-os por instante infinito e fechou-os apenas o suficiente para que a língua estalasse no céu da boca. E lá estava sua palavra. Aquela que ecoava dentro da cabeça dele, todas as noites e todos os dias desde aquela tempestade.

O farol abriu, a jovem deu a partida e a conexão foi perdida. Ele jamais veria de novo aquela mulher. Jamais saberia quem ela é, se monstro2_1realmente ela existia ou era apenas um fantasma, uma alucinação maluca da sua cabeça, ou ainda porque tinha lhe dito apenas aquela única palavra, que lhe perseguiria até o fim dos seus dias. Nem ao menos saberia o seu nome, o nome da mulher que o amaldiçoou para sempre.

Então, agora estava ali. Era noite novamente, só que já tinham se passado cinco meses desde aquela noite. 13 de agosto. Sexta-feira. Coincidência? Talvez a ironia de costume. Tinha a leve sensação de que as noites das quais não se lembrava eram todas de dias treze, como aquele. Talvez até mesmo aquela noite. Novamente estava dirigindo e começava a sentir a antecipação que sentia todas as vezes que a memória lhe escaparia mais tarde. Era quase como se tivesse aquele passageiro dentro de si e, em apenas em uma única noite de cada mês, ele despertasse da escuridão. Pela primeira vez na vida sentia medo. Mas também sentia uma ansiedade, uma vibração, o antegozo do que estava por vir. Seja lá o que fosse, ele não se lembraria. Mas lhe daria aquele prazer saboroso no último segundo, que ele talvez apagasse da memória porque era doloroso demais para lembrar no dia seguinte.

Só que dessa vez havia mais dois passageiros no carro com ele, além daquele que levava de carona há meses. Dois homens que estavam mais assustados do que ele; um deles, o que estava sentado ao seu lado no banco do passageiro, apontava uma arma direto para seu abdômen.

– Dirija! – ele dizia. – Vamos, dirija.

Ele tinha uma cicatriz enorme no lado esquerdo do rosto e os olhos injetados, negros. O de trás era mais mirrado, quase como se passasse fome ou medo demais. Mas ambos carregavam pistolas e o menor deles uma bolsa grande que só podia ter dinheiro ou joias. Tinham assaltado uma joalheria pelo que tinha entendido e ele por ironia do destino tinha sido escolhido como rota de fuga dos dois.

A ironia ria para ele e lhe provocava de uma esquina escura, como uma prostituta sedutora e vil, sua gargalhada ecoando em suas veias. Era um advogado, um promotor público, na realidade. E sua vida – antes que ela tivesse se acabado junto com suas memórias – era dedicada a colocar tipos como aquele atrás das grades. E agora lá estava ele, sendo vítima de uma dupla de ladrãozinhos de araque, mas que estavam armados o suficiente para matá-lo se assim o desejassem.

Ou não.

– Dirija, filho da puta! Vamos, vamos!

O homem da cicatriz dizia aquilo olhando por cima do ombro, nervoso. O mirradinho do banco de trás dizia “tá tudo limpo, tá tudo limpo”, mas o da cicatriz não acreditava e só queria se afastar dali o mais rápido possível.

Ele poderia apenas fazer o que o cicatriz mandava. Ou poderia simplesmente ignorá-lo, que diferença fazia? Talvez fosse até melhor estar morto. Pelo menos não veria o sangue e a dor no dia seguinte. Porque dessa cena não esquecia. Tinha sido em maio. Todo aquele sangue no chão da sala. Os olhos dela, da sua mulher, vidrados, não acreditando no que tinha acontecido. Os lábios entreabertos, que jamais lhe perguntariam como foi o seu dia, somente para que ele a ignorasse na resposta. Tinha se safado dessa, mas a consciência ainda o perseguia. Talvez fosse melhor mesmo estar morto.

– E os caras? Os homens tão atrás da gente?

– Não, não. – respondeu o mirradinho. – Relaxa, tá tudo limpo.

Não, não estava. Porque ele sentia ainda mais forte a antecipação, como se algo estivesse acordando. Logo tudo estaria sujo. De sangue. Estava ali, só esperando uma brecha, o momento certo. E ele não sabia qual seria.

– Ali, idiota. – o da cicatriz disse – Embica o carro ali naquela garagem.

Não era uma garagem. Tava mais pra um terreno baldio, que servia como depósito de lixo velho, pois aquele monte de porcaria largada ali não poderia mais ser chamada de carros. Ele freou bruscamente seu carro esporte, a única lembrança daquela época áurea que ainda lhe restava. Era seu refúgio. E agora os homens estavam mandando que ele saísse da segurança que havia dentro dele.

Ele saiu, mas sem levantar as mãos para cima como os caras mandavam. Para quê? Atirem, pensou. Atirem e estarão me fazendo um favor, além de salvarem sua pele. Mas eles não atiraram. Talvez pensassem que o barulho dos tiros atrairia alguém. Eles estavam mais perdidos do que cachorro em dia de mudança. Não tinham a mínima ideia do que fazer com ele, com o carro, com as joias, com a polícia invisível que achavam que os perseguia. Chegava a ser patético.

– Mãos pra cima, cretino! – gritou o da cicatriz. – Mãos pra cima!

Não dava mais para segurar. Então ele riu. Riu de se fartar, até gargalhar, até sua barriga doer. O fim era uma piada mesmo. Era a velha ironia voltando. Só podia ser. Toda sua vida, todas suas memórias, toda sua história e aquela maldição, para terminar assim? Em um terreno baldio, vazio, com dois panacas que nem sabiam apontar uma arma direito. Principiantes. Eles talvez nem soubessem matar.

Ele também não sabia. Mas havia alguém que sabia. E ele estava emergindo.

Na terceira vez que o homem da cicatriz mandou que erguesse as mãos, ele assim o fez. Mas ainda ria. E seu outro eu já estava no comando. Sabia muito bem o que fazer com aquelas mãos erguidas, mas principalmente, com os dentes. Tinha fome. Um mês era tempo demais. Carne, carne, carne.

Quando ele avançou, não havia pistola no mundo que conseguisse impedi-lo.

Não havia vizinhos tampouco para ouvir os gritos do cara da cicatriz, que agora estava fazendo uma coleção delas pelo corpo. Não somente cicatrizes de feridas abertas, mas mordidas brutais, pedaços de carne arrancados, sangue espirrando para tudo quanto era lado. O mirradinho estava tão apavorado que nem conseguia falar, muito menos atirar.

monstro2_2Quando o da cicatriz já estava abatido, dilacerado, carne morta e sem sabor, o mirradinho encarou os olhos daquela coisa e viu dentro deles a chama que ardia sem se apagar. Ele gritou, deixou cair a arma e correu como da própria morte, e ah, como ele tinha razão. Correu, correu até que fosse parado. Seu corpo balançava com os impactos. Pum. Pum. Pum.

Tiros.

Uma saraivada deles. Bem no peito do mirradinho.

E antes de cair no chão, a última palavra dele na vida, que ele gritou a plenos pulmões para os homens da polícia que, ora, vejam só, estava realmente no encalço deles, nada estava tão limpo quanto ele dizia, bem… a sua última palavra foi a mesma que aquela mulher vermelha tinha dito cinco meses atrás, em silêncio.

Monstro.

Conto originalmente publicado no Projeto Um Ano de Medo em duas partes: parte 1 e parte 2.

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