Invisível [Um Ano de Medo]

invisível

Helena andava de um lado para o outro. Seu marido, Eduardo, a observava atento, mas não dizia o que estava pensando – que ela logo cavaria um buraco no chão de tanto caminhar. Ela tremia dos pés à cabeça e não conseguia se manter no mesmo lugar. Aquela sensação horrível de medo e impotência era muito maior que ela mesma. Apenas sentar e esperar parecia algo impossível.

Duas horas antes ela estava tranquila, no conforto de sua casa, quando o telefone tocou e ela ouviu a segunda notícia mais aterrorizante que uma mãe pode receber.

– Boa noite, quem fala é a Dona Helena? – perguntou uma voz desconhecida e feminina do outro lado da linha.

– Sim. – ela respondeu confusa. Estava distraída e relaxada. Eduardo tinha chamado uma pizza e os dois assistiam a um filme na televisão. – Por quê?

– A senhora é a mãe do Rafael?

Foi quando um alarme – aquele alarme infalível que toda mãe possui – soou na sua cabeça. Imediatamente suas mãos começaram a suar e suas pernas bambearam. Ela sentiu as mãos de Eduardo em seus ombros, amparando-a.

– S-sim… Sou eu mesma. – ela respondeu com dificuldade. A voz falhava. – Onde ele está? O que aconteceu com meu filho? Quem é você?

– Senhora, por favor, acalme-se… O seu filho está sendo tratado, ele está no hospital.

De repente tudo ficou horrivelmente escuro.

– HOSPITAL?! – ela ouviu sua própria voz soando como um trovão e, ao mesmo tempo, muito distante, como se pertencesse a outra pessoa. – O- o quê?! Onde? O que aconteceu?

Eduardo tirou o telefone do seu ouvido. Helena tentou gritar e protestar, mas havia uma confusão em seu cérebro: ela não sabia se gritava, corria, caía ou chorava. Ela só queria ver Rafael. Onde estava Rafael? O que acontecera com seu filho?

– Sim, eu sou o pai dele. – Eduardo dizia. – Ok, estou anotando o endereço. Compreendo. Estamos saindo de casa agora, logo estaremos aí. Sim, sim, obrigado.

Eduardo desligou o telefone e olhou para Helena. Ela ficou ali, parada, olhando para o marido e tremendo. Nem conseguia falar. Sentia como se o seu coração fosse capaz de sair pela boca se o fizesse. Sua pergunta foi muda.

– Helena, o Rafael sofreu um acidente. Ele está no hospital, está sendo tratado…

– O QUE ACONTECEU, EDUARDO?!

– Helena, sente-se… Eu vou buscar um copo d’água…

– EU NÃO QUERO SENTAR!

Eduardo engoliu em seco e sua expressão era séria demais. Aquilo dava a Helena certeza que não estava exagerando ao gritar desesperada daquele jeito.

– Helena… O Rafael bateu a cabeça. Está na U.T.I.

E foi assim que Helena chegou àquela situação.

Existem vários tipos de medos. No entanto, para uma mãe existe apenas um: o abjeto e sufocante terror diante da possibilidade de perder um filho. Ela já recebera a segunda pior notícia que uma mãe poderia ter: alguém dizendo que o filho estava no hospital após sofrer um acidente. E, agora, naquela sala fria e cinzenta de espera, ela aguardava pela pior notícia que se pode existir: que uma pessoa que se ama mais que a própria vida está morta.

As paredes pareciam sufocá-la. Era como se elas se espremessem, tornando aquele corredor menor e ainda mais opressivo do que era na realidade. Helena começou a observar o lugar quase obsessivamente. O piso era lascado e desbotado; formava um tabuleiro de xadrez com as cores amarela e vermelha. As paredes eram brancas, porém pareciam cinzentas devido a pouca iluminação. As janelas estavam embaçadas por causa do sereno da noite escura e sem estrelas. O silêncio era aterrador. Quem jamais esteve em um hospital, apenas esperando por notícias terríveis a respeito de um ente querido, não sabe o que é ter medo. Um medo real, absurdo e paralisante. É o verdadeiro terror. O inferno na Terra.

Uma eternidade pareceu ter passado quando, finalmente, dois médicos vestidos de branco saíram da sala através de uma porta enorme onde, acima, havia uma placa indicando U.T.I.

Helena correu até eles. Apenas sentiu a presença de Eduardo atrás dela. Ela nem deu tempo de qualquer um dos médicos falar: virou-se para um deles, o que parecia mais velho. Ele tinha uma extensa barba branquíssima, olhos tranquilos e uma careca reluzente. Havia um nome bordado no seu jaleco branco, mas como Helena estava sem óculos, ela não conseguiu ler.

– Como está meu filho? Ele vai ficar bem?

Foi o outro médico que respondeu. Era um homem robusto de face séria e sobrancelhas grossas que parecia beirar os cinquenta.

– O rapaz sofreu uma batida violenta na cabeça, minha senhora. Essas 48 horas serão cruciais. Estamos mantendo-o acordado porque, se ele entrar em coma, não poderemos garantir que voltará. Ele vai permanecer na U.T.I. durante esses dois dias e, somente depois, poderemos realmente desenhar um quadro melhor do seu estado.

– Eu quero vê-lo!

– Não posso permitir, minha senhora. Ninguém pode entrar na U.T.I. no momento. Amanhã a senhora poderá retornar, o horário de visita é às 17 horas, poderá ficar 15 minutos com ele…

– Não, eu preciso! – ela se virou o outro médico, o velhinho careca. – O senhor precisa me ajudar, ele é meu filho, meu filho, eu preciso…

– Acalme-se, mãezinha. – disse o médico mais velho. Ele tinha a voz calma e inabalável. Seu tom era rouco, porém amável. Ele tinha um brilho incomum nos olhos. – Fique tranquila. A senhora pode ir para casa, descansar. Vou ficar o tempo todo ao lado do seu filho. Eu prometo.

– O senhor promete ficar ao lado dele? Mesmo? Meu filho…

– Pode deixar, mãezinha. Vá para casa, descanse. Tenho certeza que seu filho passará por essas 48 horas. Vou ficar com ele todo o tempo, minha filha.

– Obrigada… – Helena murmurou. Ela não viu que o outro médico, o mais jovem, e seu marido trocaram olhares confusos. Eduardo também agradeceu ao médico e ajudou Helena a caminhar. Ela possuía tantas lágrimas nos olhos que mal conseguia enxergar o caminho à sua frente.

***

Três dias depois Helena estava sentada à cabeceira da cama de Rafael. Ele tinha passado pelos dois primeiros dias e deixara a U.T.I. invisível2Ela não poderia estar mais agradecida. Queria muito falar com aquele médico, o senhor careca com a longa barba, porém, por mais que perguntasse às enfermeiras, nenhuma delas sabia dizer quem afinal era o homem. Algumas chegavam a lhe dirigir olhares tortos e até mesmo condescendentes, sugerindo que Helena estava abalada demais e confusa devido à situação.

Porém, ela tinha certeza absoluta de que vira e falara com o médico. Quando Eduardo voltou da lanchonete, trazendo dois copos cheios até a borda de café, Helena decidiu questioná-lo.

– Eduardo, você se lembra daquele médico que falou com a gente no dia que Rafael foi internado?

– Quem? O Doutor Marcos? O da sobrancelha grossa?

– Não, não, o outro. Ele era bem velho. Tinha uma barba enorme e uma careca lisinha. Falava de mansinho.

Eduardo continuou observando a esposa em silêncio. Seus olhos estavam arregalados em descrença.

– Helena, só havia um médico falando com a gente aquela noite.

Ela quase riu.

– O quê? Pare de brincar comigo, Eduardo.

O marido, porém, parecia muito sério.

– Ah… Sabe, Helena, eu não comentei nada com você antes porque você estava muito abalada… Mas aquela noite você estava agindo de um jeito estranho. Falava com as paredes. Você estava fazendo o médico prometer que ficaria ao lado de Rafael durante a noite toda, mas você não olhava para ele. Era como se olhasse para um ponto ao lado dele ou coisa parecida. Ou para alguém invisível.

Helena piscou, observando o marido como se o visse pela primeira vez.

– Eduardo, eu vi esse senhor. Ele era médico. Estava de jaleco e tudo mais. Era velho, careca, tinha uma barba enorme… Falava com muita calma… Ele disse que ficaria ao lado do nosso filho todo o tempo e que ele ficaria bem. Ele me chamava de “mãezinha”. Ele me garantiu que Rafael ficaria bem e ele está bem!

– Helena… – Eduardo disse hesitante. – Você estava abalada… Foi um estresse enorme pelo qual passamos…

– Não! Eu vi, eu juro que vi!

– Eu sei, mãe. – disse uma voz fraca. Helena e Eduardo se viraram para Rafael. Ele estava acordado e sorria. – Você o viu sim. Esse médico, um velhinho careca e de barba… Ele realmente ficou ao meu lado o tempo todo. Ele disse que eu ficaria bem. E depois disso eu nunca mais o vi.

Conto originalmente publicado no Projeto Um Ano de Medo.

Nota da autora: Eu deveria postar essa história perto do Dia das Mães, mas não acho que eu vá estar em condições nessa data para falar de mães… Portanto, essa é a minha singela homenagem a essas mulheres maravilhosas. Pode não parecer tão aterrorizante quanto monstros e criaturas sobrenaturais, mas algumas vezes a vida real dá muito mais medo que os livros ou os filmes. Essa história realmente aconteceu, mas vamos deixá-la como “essa é a história de um amigo de um amigo meu” mesmo. 

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Comments
2 Responses to “Invisível [Um Ano de Medo]”
  1. Karla Cañete disse:

    Ah maninha, só quem já esperou por notícias de alguém nos corredores de um hospital pode entender o que é este medo. Não tenho medo de fantasmas, nem de monstros, eles são criaturas como nós, em algum lugar perderam algo e hoje lutam para encontrar a sua essência, mesmo que não tenham se dado conta disso ainda. Tenho medo de ser impotente, de ouvir e ver o rosto de um médico sem saber o que fazer, isso sim me mete medo e essa sensação eu nunca mais vou conseguir esquecer. Parabéns pela história. Bjs e te amo.

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    • Karen Alvares disse:

      Pois é, maninha, isso sim é medo de verdade…
      Eu fiz essa história naquele dia que você me contou do rapaz que se acidentou e tals, da tua colega professora. Achei impressionante a história (mas a gente sabe que não é história).
      Te amo.

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