O túnel [Um Ano de Medo]

Era uma sala escura e sem janelas. Eu estava completamente nu, faminto e ferido. Não lembrava quando fora a última vez que vira a luz do sol, nem quando bebera água. Não fazia a mínima ideia de como viera parar ali. Minha mente delirava. Eu via sombras nos cantos e tinha pesadelos quando pegava no sono. Estava preso por correntes, mas precisava arrumar um jeito de sair dali.

Havia uma pequena abertura na parede, talvez suficiente para um homem se arrastar agachado. Parecia ser a única saída daquele lugar horrível.

O meu grito ecoou pelas paredes escuras e frias quando quebrei meu pé com um tijolo. Tinha que fazê-lo passar pelas algemas que o ancoravam a uma corrente na parede. Doeu como o inferno, mas ao menos agora eu estava livre.

Eu suava e gritava, mas minha força de vontade era maior que a dor. Tinha que sair dali. Caso contrário, não sobreviveria. Por que fizeram isso comigo? O que eu tinha feito de errado? Arrastei-me alguns centímetros no chão sujo até que a exaustão e a dor finalmente me venceram.

Quando acordei estava parado no mesmo lugar, jogado no chão como um trapo desprezado. A escuridão ainda era reinante e minha boca parecia mais seca do que nunca, como se jamais tivesse visto água na vida. Procurei tateando pelo chão desesperadamente por algo úmido, qualquer coisa. Quando já estava perdendo as esperanças encontrei uma goteira; era tão mínima que quase não a escutava, porém era água, e eu sorvi gota por gota por vários minutos. Infelizmente aquele oásis só parecia me deixar ainda mais sedento.

Precisava sair. Talvez houvesse água do outro lado da passagem. O que seria aquilo? Alguma espécie de jogo doentio? Se fosse eu precisava ganhar. Era só me arrastar até o outro lado.

Havia uma luz ínfima no final do túnel de pedra. Era pouco, mas era o bastante para me encher de esperança. Comecei a me arrastar, alimentado apenas por minha força de vontade e minha esperança, meu pé ainda doendo de maneira excruciante. O túnel parecia interminável e a meu avanço cada vez mais lento devido à fraqueza e à exaustão. Meu pé era um peso morto que eu precisava arrastar atrás de mim.

Mas eu prossegui, certo de que chegaria a algum lugar. E quase cheguei. Quando a luz se tornou muito mais do que um minúsculo quadradinho branco, quando ela cegou meus olhos eu vi mais alguma coisa no corredor.

Era uma criatura que vinha se arrastando pelo outro lado. Eu não conseguia ver direito, mas a princípio parecia humano. Gritei poro_túnel1 ajuda e a criatura se aproximou. Foi assim que eu a vi melhor. E a visão era repugnante.

Não saberia dizer se era um animal ou uma pessoa. Tinha braços, porém as pernas eram inúmeras e pareciam semelhantes à de uma aranha gigantesca. Seu rosto era metade humano, metade bicho, e possuía uma língua enorme que chicoteava nas paredes e se dividia em duas na ponta. Babava, parecendo faminto.

Recuei, gritando de pavor. O único lugar para fugir era retornando para aquela cela maldita. Mas e depois? E depois?

O que eu não sabia era que, além daquelas paredes, havia um homem rindo bem alto em um laboratório cheio de produtos químicos, instrumentos cirúrgicos e câmeras monitorando todos os meus passos. E que aquela criatura horrível seria eu amanhã.

 Conto originalmente publicado no Projeto Um Ano de Medo.

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Comments
4 Responses to “O túnel [Um Ano de Medo]”
  1. Alex Mendes disse:

    Caraca!! Me deixou tenso o texto! Mas amei!

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  2. Laís Galvão disse:

    Adorei esse! Um dos meus favoritos até agora!
    Me lembrou “centopeia humana”, misturado com “jogos mortais”, misturado com ”hostel”… ;p

    E da fic, Karen? Vc tem novidades? 🙂

    Bj.

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    • Karen Alvares disse:

      Obrigada, Laís! =)
      Eu já li bastante sobre Centopeia Humana, mas ainda não tive coragem de assistir. Tu assistiu?
      Ih, moça, da fic infelizmente não tenho novidades no momento, mas quando tiver posto por aqui.
      Beijos!

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