A confissão [Um Ano de Medo]

confissao2– Perdão, padre, pois eu pequei. – disse o homem com o rosto meio encoberto por um capuz.

Não era possível enxergar seu rosto. Muitas pessoas preferiam se esconder quando realizavam a confissão. Era uma bobagem, pois podemos nos esconder de todos, menos do Senhor. Vergonha, culpa, medo: eram vários os motivos. O Padre Júlio acreditava já ter visto todos eles. Também pudera, após vinte anos no clero, era bem capaz de ele ter visto de tudo.

Tolice. Pretensão. Arrogância. Ninguém nunca viu de tudo nessa vida. O problema é que as pessoas só percebem isso quando realmente estão presenciando algo inimaginável.

– Desafogue seu coração, meu filho. – disse o padre. – Confesse seus pecados e o Senhor o perdoará.

O homem fez uma pausa longa. Sua respiração era profunda e barulhenta.

– Eu matei um homem, padre.

Júlio deixou a confissão daquela alma torturada cair com um enorme peso em seu coração. Não era a primeira vez que ouvia esse tipo de confissão, porém ela sempre era mais pesada que as demais.

“Não matarás” é o quinto mandamento, meu filho. Tirar uma vida é um pecado terrível, você bem sabe, não é?

– Sei, padre. – o homem do outro lado disse com a voz rouca e torturada. – Por favor, padre, me perdoe.

– Quem perdoa é o Senhor, meu filho. E você terá uma longa penitência pela frente. Mas diga, meu filho, o que o levou a realizar tal pecado?

– Eu matei… – ele parecia engasgado, como se aquele peso fosse grande demais para seu coração. – Eu matei esse homem porque ele me matou primeiro.

– Como assim, meu filho? Você está vivo.

– Não estou não, padre. Estou morto há vinte anos. Sou uma alma torturada que vaga sem rumo na escuridão.

O padre deixou o silêncio como uma barreira entre os dois por alguns minutos. Ele se ajeitou na cadeira de madeira, que rangeu de uma forma inconfundivelmente sinistra. Sentia-se incomodado e não sabia dizer a razão.

– Explique-se melhor, meu filho. – o padre Júlio finalmente disse, mas no fundo não sabia se realmente queria saber. Porém, era seu dever perguntar.

– Há vinte anos, padre – ele enfatizou a palavra –, esse homem veio até mim. Eu tinha apenas nove anos. Ele se vestia todo de preto, assim como o senhor está vestido. – por um mero instante, o Padre Júlio viu os olhos do homem de capuz. Eram vermelhos de tanto beber ou talvez de tanto chorar. O padre se mexeu novamente na cadeira, mas por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma posição confortável. – Eu estava brincando. Eu era só uma criança!

Ele ergueu a voz e bateu na grade de madeira com força. Todo o confessionário tremeu. Júlio recuou, tremendo, gelado até os ossos. confissaoPor mais que o homem o estivesse olhando, ele ainda não conseguia ver o seu rosto. As sombras o encobriam. Seu coração batia depressa, sem rumo.

– Meu filho, acalme-se! – foi tudo o que conseguiu dizer, tentando transmitir autoridade, em vão tentando não revelar na voz o pavor que sentia.

O homem se acalmou um pouco. Ele recuou novamente para as sombras, onde não havia nem a mínima partícula de luz e continuou a falar:

– Esse homem, padre, ele veio até mim… e me mostrou algo que eu jamais deveria conhecer ainda tão jovem.

O Padre Júlio recuou agora até a parede do confessionário, abandonando todo o fingimento. Ele achou ter visto a sombra de um sorriso no rosto daquele homem.

– Sim, padre. Aquele homem fez exatamente o que senhor está pensando. Ele me usou. Abusou da minha inocência. Ele me fez homem quando eu ainda era só um menino. – ele deu uma risadinha. – Se é que posso chamar as coisas desse jeito.

O padre não disse nada. Não conseguia. Sua voz morrera na garganta.

– Foi isso que aconteceu, padre. Eu morri aos nove anos. Tão jovem para morrer, não acha?

– Meu filho… – Júlio encontrou finalmente sua voz. Ela saía fraca e aguda, mas estava lá. – Seja lá o que você tenha feito, Deus irá lhe perdoar…

– Quem é você para falar de Deus?! – o homem bateu novamente com força na grade. O padre escorreu pela parede do confessionário, todo o seu corpo amolecido como massa de pão. – O senhor quer saber que pecado eu cometi, padre? HEIN? QUER SABER?

Novamente a voz lhe fugiu na hora que mais precisava. O Padre Júlio permaneceu calado.

– Eu coloquei fogo em uma Igreja. Eu matei um homem, aquele homem. E finalmente dei cabo do serviço que ele começou há vinte anos. Morri de vez junto com ele.

Não havia mais por que fingir, por que argumentar. Havia uma única saída e era fugir. Júlio tateou a maçaneta do confessionário. Virou-a. Ela soltou um clique seco e não abriu. Estava trancada.

O homem riu. Uma risada fria, sem alegria. Nunca houve qualquer alegria na sua risada desde o dia em que foi assassinado. Há vinte anos.

– Foi isso que eu fiz, padre. O senhor acha que eu mereço perdão? Eu não sei… Talvez não, talvez nunca. A única coisa que sei é que vou levar junto comigo o maldito que me matou. E nós vamos entrar juntos no inferno. E se ele não existir, padre, pelo menos teremos o nosso inferno particular. Aqui.

Ele abriu os braços, sorrindo, e exibiu sua grande obra. Pelas frestas do confessionário era possível enxergar a Igreja – sua Igreja – ardendo em chamas vermelhas e infernais. A madeira do confessionário queimava e uma fumaça negra preenchia todo o ambiente. O homem ria, gargalhava sem parar, enquanto Júlio perdia o ar e a esperança.

A penitência sempre nos alcança, pensou Júlio. É hora de pagar meus pecados.

E a última visão que ele teve foram os olhos vermelhos do homem que matou. Vermelhos como os de um demônio. E então sabia que estava no inferno.

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Conto originalmente publicado no Projeto Um Ano de Medo.

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