Até o fim [Um Ano de Medo]

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Quando eu era menina, sonhava com o amor da minha vida, meu príncipe encantado. Ele seria meu marido e meu melhor amigo, e nós viveríamos felizes para sempre. Ele me abraçaria quando eu estivesse com medo e afastaria todos os perigos.

Eu estava muito errada.

Não nego que um dia ele foi o meu amor, o meu príncipe encantado. Ele me fez feliz. Nós nos casamos em agosto. Ele realmente me encantou, com seu charme e suas palavras doces, mas a magia que usou era negra e maligna.

Hoje, tudo o que vejo é turvo pelas lágrimas e sufocado pela dor.

A magia se foi.

– Por que você fez isso? – pergunta a mulher de terno à minha frente.

Por quê?, você me pergunta. Eu vou lhe dizer o porquê. Eu fiz o que fiz porque não aguentava mais. Fiz o que fiz porque não suportava mais a dor, a humilhação, as lágrimas. Fiz o que fiz porque isso tinha que chegar ao fim.

Essa é minha história. E somente eu poderia dar um ponto final nela.

Paulo era um homem maravilhoso e adorável por fora. Era lindo, cabelos negros, bem tratados, olhos claros. Ele era especial: era como se, depois que ele fora forjado, sua forma tivesse sido jogada fora.

Por dentro, era uma fruta apodrecida.

Foi uma pena que eu só tenha descoberto isso tarde demais.

Achei que agosto seria um mês que ficaria marcado para sempre como o mais feliz da minha vida. Nós nos casamos no dia primeiro e saímos em lua de mel. Um dia, passeávamos na calçada à beira mar e paramos para tomar um sorvete. Eu disse um “bom dia” contente ao vendedor, que me respondeu a mesma coisa, com um sorriso. Era um belo dia e eu estava radiante de felicidade em lua de mel com o meu marido.

Paulo ficou carrancudo pelo resto do dia. Perguntei qual o problema, mas ele se negou a responder. Quando chegamos ao hotel, ele trancou a porta e colocou um aviso para não nos incomodarem. Tola, pensei que faríamos amor. Mas foi quando o tormento começou.

Ele gritou comigo e disse que eu estava me oferecendo na praia para quem quisesse. Disse que eu era uma vagabunda. Gritei também e discuti, disse que ele estava enganado, que ele não podia me dizer aquelas coisas.

Foi a primeira vez que ele me bateu. Um tapa seco, estalado, bem no meio da cara. Doeu, doeu muito. Meu rosto ardia intensamente. até_o_fim2Mas doía muito mais na alma.

Ficamos em silêncio por tanto tempo que parecia uma eternidade. Fui eu que quebrei o silêncio, levantando-me e dizendo que para mim estava acabado, que eu iria embora.

Paulo chorou. Ele me abraçou e pediu para que não o deixasse. Disse que só fez isso porque me amava, porque ficava louco de ciúmes, porque me queria só para ele. Prometeu nunca mais fazer isso, nunca mais encostar em mim daquela maneira.

Uma promessa vazia.

A nossa lua de mel foi arruinada, mas decidi dar mais uma chance a ele, o que foi um erro. Por seis longos meses dei tantas chances àquele homem que até perdi a conta delas.

Era uma noite fresca de março quando aconteceu.

Paulo enfiou na cabeça que eu o estava traindo com um colega de trabalho. Naquela noite, voltei tarde do serviço porque fiquei em reunião com a equipe do projeto em que estava trabalhando. Paulo já me aguardava.

Ele, no entanto, ele não esperou que eu dissesse nada. Seu “boa noite, querida” foi um soco no meu olho esquerdo.

Eu caí, claro. Foi um susto tão grande, uma dor tão intensa, que só o que consegui fazer foi me apoiar no chão. Se eu tivesse continuado em pé, talvez teria sido mais fácil. Mal ouvia o que ele dizia enquanto me batia e me chutava: na barriga, nas costas, no rosto. Ele repetia alguma estupidez sobre estar me consertando. Mas eu estava mais preocupada tentando proteger meu rosto do que ouvi-lo. Ele continuava chutando e logo eu estava coberta de sangue.

Sangue por toda a parte. No tapete, nas cortinas, nas minhas roupas. O próprio Paulo estava coberto de sangue. Então ele começou novamente a chorar.

Acho que foi isso que me deu a coragem que precisava. Foi isso que fez brotar todo o ódio que eu em vão tentava reprimir por todos aqueles meses. Eu dizia a mim mesma que o amava, que ele estava tentando, que eu não podia abandonar a nós dois, que eu tinha que tentar também.

Mas foram as lágrimas dele que alimentaram minha raiva.

Ele batia em mim e depois chorava? Que espécie de homem tem essa atitude? Eu é que deveria estar chorando, chorando pela dor física, chorando pela dor da minha alma. Mas não, eu nunca chorava. Todo aquele tempo, todas aquelas surras, e eu nunca derramei sequer uma lágrima.

Disse a mim mesma que eu era uma rocha. E sobreviveria.

até_o_fim3Paulo me levou ao hospital. Estava muito tenso, extremamente nervoso. Ficava repetindo o tempo inteiro que eu não podia contar a ninguém. Alternava entre me ameaçar dizendo que me mataria, que mataria minha família, e me pedindo perdão, dizendo que me amava, que cuidaria de mim. Eu mantinha meu silêncio frio.

Claro que no hospital suspeitaram. Paulo disse que foi um acidente, que eu tinha sido atropelada e que o motorista fugiu. Para incrementar a mentira, ele xingava transtornado, culpando uma pessoa imaginária. Talvez ele até acreditasse nisso. Em certo momento, uma mulher vestida de terno, muito elegante, entrou na sala e pediu para que Paulo e a enfermeira que cuidava de mim nos deixassem a sós. Paulo me lançou um olhar de aviso ou de súplica: não sei dizer qual dos dois.

– Foi ele quem fez isso com você? – a mulher perguntou. Ela segurou minhas mãos com doçura e continuou a falar, delicadamente. – Meu bem, você pode dizer. Nós a protegeremos. Não precisa ter medo.

Eu juro que quase falei. Juro que as palavras chegaram na ponta da minha língua e, pela primeira vez, lágrimas brotaram nos meus olhos. Mas eu já tinha feito uma promessa a mim mesma e não disse nada. Minhas únicas palavras foram:

– Foi um acidente. Foi só um estúpido acidente.

A mulher suspirou e me deixou sozinha. Voltaram a cuidar dos meus ferimentos. Passei uma noite no hospital. Paulo ficou ao meu lado todo o tempo, como um bom marido faria.

Fui liberada no dia seguinte. Ele falava muito, disse que faria o que eu quisesse, tudo o que eu pedisse. Chegamos em casa. Ele me deitou com carinho na cama. Pensei em tudo que poderíamos ter sido, fiquei com raiva pela felicidade me ter sido negada. Mas segui com o plano. Pedi a ele que me buscasse um sorvete na padaria.

Sim, um sorvete. A ironia é ótima, não?

Ele saiu sem pestanejar. Naqueles minutos que estava longe, eu me levantei, fui até a cozinha e escolhi uma bela garrafa de champanhe. Faríamos uma comemoração. Separei dois copos chiques e coloquei neles o líquido borbulhante. Esperei.

Quando Paulo chegou, feliz e contente, não estava preparado para o que estava por vir. A garrafa desceu com força em sua cabeça. O sangue espirrou e ele caiu. O sorvete caiu no chão, estourou e sujou o tapete. Eu estava esperando atrás da porta. Fechei-a e sorri para meu marido desacordado.

Amarrei-o na cama utilizando camisas e gravatas. Os pés e as mãos. Certifiquei-me que os nós estavam bem apertados e firmes. Esperei novamente. Minha vida agora era esperar.

Quando ele acordou achei engraçado. Ri, não, eu não ri apenas, eu gargalhei. Ele primeiro ficou muito nervoso, gritava e se debatia, ordenava que o soltasse, os olhos injetados, o sangue emoldurando-os em vermelho. Depois, ele assumiu outro personagem: ficou excitado, dizia palavras obcenas, queria que eu o possuísse ali, amarrado. Dizia que tudo bem, eu era uma safada e ele sabia disso, estava me provocando para ver até onde eu iria.

– Ah, eu vou muito longe, meu bem. – eu disse. – Vou até o fim.

Bebi a primeira taça de champanhe. A segunda deixei sobre o criado mudo. Havia ali também uma faca. Vi os olhos do meu marido se arregalarem quando percebeu esse detalhe.

– O que você vai fazer? – a voz dele não parecia mais tão segura.

– Eu vou consertá-lo. Assim como você me consertou, meu amor.

A primeira coisa que arranquei dele foram seus genitais. O sangue jorrava em abundância e ah, como ele gritava. Gritava e xingava, xingava e gritava. Era uma doce melodia.

Joguei a champanhe em cima do vazio entre suas pernas. Ele gritou ainda mais.

Depois cortei seus dedos, um a um, para que ele nunca mais batesse em mim. Decepei seus pés que estavam machucados de tanto me chutar. Cortei sua língua, que me feria mais do que seus punhos. Por último, furei seus olhos, que só viam o pior em mim, quando eu dava o meu melhor a ele.

– Deixei-o sangrando no apartamento e vim aqui. – disse à mulher de terno. – Ele ainda está vivo?

– Está. – disse a mulher. – Está no hospital e em choque.

– Ótimo. – eu disse satisfeita. De nada adiantaria ele morrer agora. – Quero que ele sobreviva. Eu e ele vamos continuar vivos e sofrendo. Cada um à sua maneira. Até o fim.

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Nota da autora: Esse conto foi originalmente publicado no dia 8 de março de 2013, no blog Um Ano de Medo. Pensei muito em qual tema deveria abordar no Dia da Mulher. Qualquer terror parecia vazio, tolo, exceto esse tipo de terror. Um terror real, vivido por tantas mulheres anônimas, em tantos lugares. Foi por esse motivo que não dei nenhum nome à minha personagem: ela representa várias mulheres. É inacreditável e inconcebível que esse tipo de terror ainda exista em nosso mundo. Os monstros aqui estão longe de serem de mentira: são de verdade. Gostaria que eles fossem pura ficção, mas não são. Eles existem e se chamam violência, machismo, intolerância, posse, medo e tantos outros nomes horríveis. Não fiquem caladas: denunciem. Isso não é amor. Amor de verdade não machuca. E homens, homens de verdade, contribuam nessa luta. Propaguem essa ideia. Um Feliz Dia da Mulher para todas as mulheres. Obrigada por lerem até aqui e até a próxima. 

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