Focinho de Porco [Um Ano de Medo]

focinho de porco1Era difícil respirar. O sangue coagulado em suas narinas impedia que o ar entrasse e saísse como deveria. Além disso, cada inspiração fazia doer as costelas fraturadas. Como se isso não fosse o bastante, suas costas também doíam por estarem na mesma posição há tanto tempo. E os pulsos estavam lacerados pelas cordas que a prendiam à dura cadeira de madeira compensada.

Tudo o que lhe restava era esperar.

Esperar por alguém. Esperar pela dor. Esperar pela comida que nunca chegava. Esperar pela água abençoada. Esperar por ele. Esperar pela morte.

Seus lábios estavam secos, desidratados. Não lembrava há quanto tempo estava sem beber água. Deveria fazer muito tempo. Gostaria de ter um relógio; não, não gostaria… Suas horas estavam contadas. Um relógio agora seria somente mais uma contagem para o fim – que parecia também nunca chegar.

Ela mal conseguia abrir os olhos; o olho direito estava tão inchado que parecia colado. Também não importava, estava escuro demais para ver alguma coisa. Não havia nada para ver além da dor. Sentia falta do sol e da luz que jamais veria novamente.

Pensava muito em Daniel nesses momentos sombrios e solitários. Onde ele estaria nesse momento? Será que em outra sala como essa, trancado, amarrado, espancado… Será que já teria contado alguma coisa? Ou será que resistiria? Ela acreditava que sim, que Daniel resistiria até o fim e era só por esse motivo que ela também continuava resistindo. Ele não ouviria o som de sua voz – exceto os gritos, inevitáveis.

E se Daniel estivesse morto?

Não, ela não suportaria. Não queria nem pensar nessa opção. Era uma opção lógica, viável, porém era impossível em seus focinho de porco2pensamentos. Ele estava vivo, era como se sentisse isso.

Às vezes fraquejava. Sentia saudades de casa, da cama feita, dos lençóis brancos cheirando a lavanda, do cheiro de café fresquinho, da luz da manhã em seu rosto. Do beijo de sua mãe.

O beijo de sua mãe. Esse jamais sentiria também.

Quando chegava nessa lembrança lembrava que era por ela que estava ali. Quando o filme doentio se repetia em sua cabeça: o barulho do tiro, a explosão, o sangue, o corpo de sua mãe caindo em câmera lenta no chão… Era aí que se lembrava de tudo. Era por ela que lutava contra o regime, era por ela que apanhava de pé, era por ela que aguentava os chutes e as pancadas, era por ela – e só por ela, nem por Daniel, só por ela – que fazia parte da Revolução.

Um dia seria recompensada. Mesmo que não estivesse mais viva para ver a recompensa. Para ver o dia nascer de novo.

Os passos. Os passos dele. Estavam cada vez mais próximos. Ela fechou o único olho aberto, exausta. Tentou respirar para se acalmar, mas tudo doía muito. Gostaria de morrer agora, nesse instante.

Cada vez mais altos. Os passos. Um atrás do outro. Altos. Secos. Firmes. Ouviu a porta ranger em algum ponto atrás de si. Manteve a postura reta, orgulhosa, mas os olhos ainda estavam fechados. Não queria olhar para ele – ele era um monstro. Usava uma máscara horrível – suína – para esconder o rosto e sua voz saía sempre esquisita, deformada, até mesmo engraçada, mas isso foi só no primeiro dia, antes que a tortura começasse.

– Olhe para mim. – ele disse.

Ela não respondeu. Nunca respondia. Ele jamais ouviria sua voz. Manteve os olhos fechados com força, tentando colá-los ainda mais. Seu corpo estava completamente tenso, dolorido devido ao esforço de se manter firme nas cordas. Sua vontade era de desabar ali mesmo, mas não faria isso na frente dele.

– Olhe para mim. – ele repetiu, dessa vez em tom de aviso, um tom lento e ponderado que era mais ameaçador que um grito. Ela continuou de olhos fechados, fechados com muita força e vontade.

Sentiu algo gelado e duro em sua testa.

– OLHE PARA MIM!

Ela abriu os olhos – na verdade, apenas um deles. Lentamente, quase preguiçosamente. Jamais deixaria de ser rebelde. Seria assim que morreria. Por sua mãe. Por Daniel.

Havia o cano longo de uma arma fria encostada na sua testa quente de suor.

Ele ainda usava a máscara de porco.

– Fale. Onde ele está? O líder?

Era sempre a mesma pergunta. E ela nunca respondia.

– É só isso que preciso saber. Só me dê o maldito endereço e você vai embora.

Ele sempre dizia isso também. Não passava de uma mentira nojenta. Ela jamais iria embora.

– O ENDEREÇO!

Ele sacudiu sua cabeça, puxando seus cabelos que já estavam ralos. A camiseta estava rasgada, mostrando parte dos seios. Ele deu um soco neles com muita força. Ela perdeu o ar.

– FALE!

Ela não falou, apenas gemeu. Talvez não conseguisse falar nem se quisesse. Mas não queria. Não falaria. Ela não contou essa parte nem a Daniel, o seu querido e fiel Daniel. Não contaria a ninguém. Preferia morrer.

– Eu trouxe água. – ele disse depois de muito tempo, quando ela finalmente recuperou o ar. Ela viu à sua frente um balde metálico onde a água brilhava. Estava suja, mas parecia maravilhosa. – Você quer? VOCÊ QUER?

A sensação foi ao mesmo tempo horrível, desesperadora e deliciosa. Ele pressionou sua nuca e enfiou sua cabeça no balde. Manteve a cabeça lá por muito tempo. A primeira sensação foi a melhor: água, água que ela não bebia há tanto tempo. O gosto era amargo e ao mesmo tempo fantástico. Mas a felicidade durou pouco: ele manteve a mão firme em sua nuca e ela não conseguia respirar. Ela contava dentro da cabeça… dez, onze, doze… vinte… vinte e um… Não era o jeito que gostaria de morrer, mas era um jeito. Algo ardia em seu peito como fogo. Talvez se abrisse bastante a boca e engolisse a água barrenta acabasse mais rápido.

Mas ele era impiedoso. No último segundo, puxou seus cabelos e ela sentiu o ar penetrando em suas narinas machucadas. O ar ardia tanto quanto a água.

– Fale. – ele disse naquela voz calma. Ela não gostava quando ele se mostrava calmo – era quando ficava ainda mais sádico. E o pior era que nesses momentos ele a lembrava algo. Ou alguém. Ele se aproximou do seu rosto, como se fosse beijá-la. O focinho de porco ficou a centímetros de seus olhos. E de sua boca. – Fale.

Foi quando ela resolveu fazer algo completamente insano. Ela mordeu o focinho.

focinho de porcoTinha gosto de borracha velha. Por reflexo, ele se retraiu e recuou – CLAC foi o som do elástico fino quebrando – e foi só nesse momento, finalmente, que a máscara caiu.

Foi a única vez que ela falou. Foi a única vez que ele escutou sua voz naquela sala escura de terror.

– Daniel…?

Foi a sua última palavra, pois Daniel apontou a arma gelada para sua boca, engatilhou e disse:

– Sinto muito.

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