Você é um demônio [Um Ano de Medo]

mulher-demonioPerseu não era um cara legal e tinha consciência disso.

Primeiro, ele era empresário, gerente de uma empresa de médio porte. Em outras palavras, ele era o Grande Chefe. E ele gostava disso, gostava de ser O Cara. Fazia com que todo mundo o chamasse de “doutor” – apesar de não ser médico muito menos ter um título de doutorado.

Todos os dias, sua rotina era mais ou menos a mesma: gritar com sua secretária, com a diretora executiva, gritar com os funcionários, xingar outros, falar vários palavrões, mandar em todo mundo e gritar mais um pouco.

Era uma sensação fantástica.

Naquela manhã fez tudo do mesmo jeito. Gritou tanto com uma menina (talvez fosse uma estagiária, parecia tão nova e idiota) que ela saiu chorando do seu departamento. Mas não antes de dizer meia dúzia de palavras petulantes:

– Você é um demônio.

Claro que foi demitida. Isso aumentou ainda mais o bom humor de Perseu que logo depois foi almoçar em seu restaurante preferido: o mais caro da região.

Estava saboreando uma ótima picanha bem mal passada quando viu a mesma menina encarando-o do outro lado da vidraça que separava o restaurante da rua. A menina tinha as mãos postadas no vidro e o encarava de olhos bem arregalados e uma expressão maníaca no rosto.

Louca. Ainda bem que a demitira o quanto antes. Imediatamente chamou o garçom e mandou que removessem aquela poluição visual. Estava atrapalhando sua digestão. Perseu acompanhou com os olhos enquanto um segurança parrudo expulsava a menina. Ela até parecia alegar que a calçada era pública, mas o segurança era duas vezes maior que ela e três vezes mais largo. Obviamente ela se afastou, mas não sem antes lançar um olhar fulminante para Perseu, que apenas ergueu sua taça de vinho.

Mais tarde, naquela noite, ele teve um sonho muito estranho.

Sonhou com a menina, só que ela tinha chifres e um rabo enorme. Estava vestida apenas com um corpete vermelho sangue. Ela lhe entregou um tridente negro que carregava e disse:

– Você é um demônio.

– Você está demitida! – Perseu esbravejou de volta. Ela apenas riu.

– Você é meu escravo. – ela retrucou e estalou os dedos na frente dos seus olhos.

Perseu acordou sobressaltado e excitado. Praguejou bem alto para o quarto vazio.

– Filha da puta!

Caminhou até o banheiro a passos trôpegos. Aliviou a excitação no chuveiro. Quase ligou para a sua secretária, para exigir que viesse lhe satisfazer. Estava pensando nisso quando se olhou no espelho do banheiro, pela primeira vez depois que acordou daquele pesadelo.

Gritou.

Passou a mão na testa para verificar se aquilo era mesmo real. Não era possível. Só poderia ainda estar dentro de um sonho maluco. Um sonho dentro de outro sonho. Ele não estava vendo aquilo, não estava.

Havia dois chifres vermelhos despontando de sua testa. Sangue escorria por seu rosto pálido. Os chifres tinham aberto a carne à força. Mas o pior foi quando o seu reflexo na parede piscou para ele e sorriu malevolamente.

– Você é um demônio. – o reflexo disse roubando sua voz.

Perseu correu, tropeçando nos próprios pés. Jogou-se na cama debaixo das cobertas. Aquilo era loucura. Estava sonhando, precisava acordar. Era tudo um terrível pesadelo e aquela menina estúpida e maluca era a culpada.

– Pare com isso! Estou mandando! – ele gritou para o quarto vazio.

– Olhe ao seu lado. – ele ouviu a voz da menina na sua cabeça. – Tenho um presente. Olhe agora.

Era uma ordem.

Lentamente, cuidadosamente, Perseu ergueu a cabeça e saiu debaixo dos lençóis. Ele virou a cabeça bem devagar e observou. Ao lado de sua cama havia um embrulho negro.

Abra. AGORA.

Perseu não estava acostumado a receber ordens, mas sabia que quando alguém era mais forte, o sensato era obedecer. E, naquele momento em particular, ele se sentia muito fraco.

Abriu o embrulho negro, rasgando o papel.

Dentro havia o tridente do sonho.

– Olhe para mim. Erga a cabeça, demônio.

Ele não queria olhar, mas era como se uma força invisível o forçasse.

Perseu ergueu os olhos. À sua frente havia um grande espelho que tomava toda a parede. Primeiro viu apenas seu rosto assustado, os chifres sanguinolentos em sua testa. Em seguida, viu a garota, exatamente como no sonho, bem atrás dele.

Ela lambeu seu pescoço sedutoramente para depois puxar sua cabeça para trás, pelos cabelos. Agora Perseu a via cara-a-cara. Os olhos dela eram vermelhos e ardiam como fogo.

– Você é meu. Você é meu escravo. Você é um demônio.

* Postagem original em Um ano de medo.

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