Crônica – O homem (e a mulher) que sabia demais

Por Karen

Bom dia, pessoal!

Eu não sei como está a manhã de domingo lá fora, porque hoje eu mal consegui sair da cama e tive que escrever umas palavrinhas. Vi uma frase outro dia, era mais ou menos assim “Escrever é se esvaziar” e quem escreveu isso estava completamente certo. Às vezes acontece comigo uma coisa engraçada: eu não consigo fazer outra coisa, eu não consigo nem dormir até mais tarde – e eu adoro fazer isso – se não escrever o que está na minha cabeça.

E eu gostaria de compartilhar essa crônica que estava na minha cabeça essa manhã com vocês.

Um ótimo domingo (e eu agora vou ver na janela se está sol!).

O homem (e a mulher) que sabia demais

Conheci um homem que sabia demais. Ele sabia de tudo. Tinha todas as respostas para todas as perguntas. Na escola, ele era o melhor. Não tirava boas notas, repetia de ano, não se formou. Mas ele era o melhor. O mais inteligente. Era melhor que todos os colegas de classe, era melhor que todos os irmãos dentro de casa.

Falando em família, esse homem ele também sabia tudo sobre família. Ele podia resolver todos os problemas de todo mundo até mesmo de olhos fechados. Ele podia consertar a vida de todo mundo. Ele sabia olhar e dizer o que estava errado na vida dos outros, sem parar para analisá-las.

Esse homem encontrou uma mulher, e ela sabia mais que ele, se isso era possível.

Essa mulher sabia demais. Sabia de tudo e mais um pouco, quer dizer, mais um muito. Ela sabia ser mais legal, mais divertida – mesmo que ninguém conseguisse vê-la sorrir, alguém sabe porque pessoas que sabem demais sorriem de menos? Ela era mais inteligente, mas principalmente, ela tinha um dom, ainda maior do que o do homem: ela podia consertar a vida das pessoas. Ela andava por aí com uma caixa de ferramentas, cheia de martelos, pregos e chaves de fenda, que ela usava para consertar tudo na vida das outras pessoas. E ela não se importava quantas vezes tinha de pregar e deixar marcas de furos na madeira, não senhor, assim como não se importava de falar tudo, tudinho mesmo, que estava errado. Como ela estava sempre certa, ninguém podia ficar triste com o que ela dizia, porque ela só estava consertando tudo.

Ah, mas eu conheci muita gente que sabia tanto quanto esses dois. Teve alguns que eu conheci, outros eram história.

Tinha aquele dirigente de uma casa que dizia que ajudava as pessoas, e ele sabia tudo o que elas deviam falar (e principalmente o que não podiam), o que deviam comer, sabia até como elas deveriam se portar e ainda sabia que elas não podiam (era proibido, acho) ficarem magoadas. Tinha também um religioso que sabia como deveria ser uma família: com papai, mamãe e filhos, nessa ordem exata, e quatro filhos era um número bom, aliás, ele era tão sabido, que sabia tudo isso mesmo sem ter uma família. Tinha também um homem que conheci que dizia que era o melhor de todos, que era o homem mais amável, que dava um bom dia amigo para todas as pessoas – menos para sua esposa – e ele sabia como deveria ser uma família perfeita; esse homem tinha família, mas ela não era perfeita.

Porque se tem uma coisa que eu tenho certeza nessa vida é que nada é perfeito. E a beleza da vida está nisso mesmo. Espere, vou explicar, mesmo que eu não saiba muita coisa, que essas poucas palavras venham apenas e tão somente da minha própria experiência muito errante.

Todo mundo gosta de histórias. Só que as mais legais não são perfeitas. Não são contadas por pessoas perfeitas. Não têm personagens perfeitas. Não têm um mundo perfeito. Se tivesse, se não houvesse problemas, não haveria história. Apenas um parágrafo, dizendo o quanto tudo era perfeito.

Já teve vezes que eu gostaria de saber mais coisas. De entender todo esse mistério que essas pessoas perfeitas, aquelas que sabem demais, entendem. É como se elas tivessem uma caixa mágica que guardasse todas as respostas.

Mas assim como em uma história, não é tão divertido ter todas as respostas. Quando nós lemos um livro, se soubermos a resposta de todos os mistérios, para quê chegar ao final da história? Se soubermos todas as respostas sobre a vida, existe algum motivo para querermos chegar ao final dela?

Por favor, alguém sabe? Alguém pode me explicar?

Na verdade, só tem uma pergunta que eu realmente queria saber a resposta, além de todas as outras. Eu já perguntei para essas pessoas que sabem tudo, mas nenhuma delas parecia saber, nem mesmo abrindo a caixa mágica com a resposta de todas as coisas elas encontraram a resposta a essa pergunta.

Nenhuma dessas pessoas sabia como ser feliz.

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Comments
6 Responses to “Crônica – O homem (e a mulher) que sabia demais”
  1. Melissa disse:

    Ai Kakazinha, poxa, que crônica legal. Confesso que fiquei um tanto perdida no meio, mas depois entrei no ritmo de novo. Você realmente escreve super bem!

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    • Karen Alvares disse:

      Ah, você achou mesmo? =D Oba!!!
      Onde você se perdeu? Eu escrevi meio os pensamentos que tive no momento, mal revisei e postei… rs Na verdade meio que precisava, hum… “vomitar” umas coisas que aconteceram e eu estava engasgada…
      Obrigada, Mel!!! 🙂

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      • Melissa disse:

        Foi na transição da parte da história da mulher e do homem que consertavam tudo pra história das outras pessoas que consertavam tudo. Foi uma mudança de ritmo que eu não esperava, então eu fiquei um pouco perdida. Mas não se preocupe, porque não foi algo permamente e depois consegui entrar “no clima” da crônica.

        A sua crônica também me fez pensar muito em algumas coisas que aconteceram comigo, de gente que acha que tem o poder de “consertar” os outros e não entendem que o outro é um território que deve ser respeitado. Fiquei pensando muito nisso com essa leitura…

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      • Karen Alvares disse:

        Hum, entendi. É foi uma mudança um pouco brusca… vou tentar deixar mais gradual. Vira e me mexe eu me pego reescrevendo meus textos. Outro dia encurtei um conto, para ele virar uma crônica. Nossa, é difícil encurtar, mas é possível! Dizem que menos é mais né? 🙂

        Fiquei feliz pela leitura tê-la feito refletir, era o que eu esperava da crônica mesmo. Refletir quanto aos outros e quanto a nós mesmos. E eu precisava desabafar, eu estava muito chateada quando escrevi isso aí. Essas coisas nos deixam indignados, sabe… Enfim, mas tá cheio de gente assim. Que vem com a caixa de ferramentas achando que podem consertar os outros.

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  2. Thiago Kuhl disse:

    Muito bom! Adorei o “não se importava quantas vezes tinha de pregar e deixar marcas de furos na madeira”. Realmente rola um ódio quando essa gente aparece pra torrar a vida!

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    • Karen Alvares disse:

      Opa! Fiquei super feliz que você gostou, eu sei que você é exigente! rsrsrs 😀
      Obrigada mesmo por ter lido, vou ficar muito feliz se um dia você ler meus originais hehehe…
      Realmente, quando esse tipo de gente aparece querendo consertar a vida das pessoas, achando que sabem tudo, dá uma raiva! Dá vontade de martelar a cabeça delas, isso sim! Affe!!!

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