Idéias que entram sem pedir licença

Por Karen

Algumas vezes, há histórias que invadem minha cabeça, sem pedir licença alguma. Acho que acontece com todo mundo. Uma idéia que invade a cabeça e fica lá, pedindo para ser feita, para ser realizada, para ser ousada… ou para ser escrita. Quando é para ser escrita, é preciso atender o mais rápido possível ao pedido antes que a idéia vá embora procurar quem a queira.

Então, recentemente, tive dessas coisas umas três vezes mais ou menos. Uma delas está aqui, agora, na minha cabeça, pedindo que eu interrompa tudo e a escreva: essa parece mais é um daqueles contos meio loucos e talvez nojentos que eu adoro do Stephen King, meu escritor de terror querido salve-salve que eu queria ser que nem ele quando crescesse. Ok, eu quero ser igual a muitos escritores quando crescer, e ele é um deles.

A outra está escrita e vou postar aqui hoje. É curtinha, talvez meio confusa, mas fiz pensando em uma música. Acho que está na cara, mas vamos ver se vocês sabem qual é ela.

Não havia estrelas no céu àquela noite. Ela não gostava disso.

Seu pai dizia que as estrelas brilhavam como diamantes. E então cantava para ela dormir a música da banda favorita dele, que falava sobre uma menina viajando em um céu de diamantes. Ela costumava ir para lá quando tudo ficava difícil.

Hoje era um daqueles dias.

Encolhida perto da porta, a menina ouvia os gritos na sala. Seus pais brigavam. Ela não entendia o motivo, não entendia porque as pessoas brigavam. Eles eram felizes, por que não poderiam ser felizes todo o tempo?

Fechou os olhos e tapou os ouvidos com força. Ela também chorava, ela também gritava, e não queria ouvir os próprios gritos. Imaginou um longo campo florido, apenas com o barulho de passarinhos, o sol alto e amarelo, iluminando tudo ao seu redor. Em sua imaginação, o sol sorria feliz, como nos desenhos que fazia, todos colados na geladeira.

Bem que seus pais poderiam olhar para a geladeira e sorrirem como o sol.

Porém, quando a menina abriu os olhos, continuou a ouvir gritos. Só que em seu quarto escuro, ela não estava sozinha.

Havia outra menina, loira, muito diferente dela. Espere, os cabelos dela não eram loiros, eram rosa… depois verdes… azuis… amarelos cor de gema de ovo… Ou eles mudavam de cor?

A menina ficou de pé, parando de chorar. Tentou falar, mas não conseguiu. A outra menina nada dizia, apenas sorria, e então estendeu a mão.

Por apenas um instante, ela hesitou. Mas os gritos de seus pais renovaram suas forças. Não queria continuar ali. Então estendeu a mão, e apertou a mão da outra menina, que era muito quente.

E então estava naquele jardim. Só que ele além de flores coloridas e de um sol com um sorriso feliz, o jardim também tinha doces… doces enormes, do tamanho da menina, ou maiores, tão grandes que a menina podia entrar dentro deles, passear dentro de um bolo de chocolate ou mergulhar em uma torta de morangos.

Havia outros animais além de passarinhos, coelhos, gatos, cachorros, e todos eles também eram coloridos, e a menina até teve coragem de encostar o dedo em um sapo, encorajada pelo olhar caloroso da menina de cabelos coloridos, para então descobrir que o sapo tinha gosto de chocolate.

Havia outras crianças, e a menina percebeu que todas elas tinham os cabelos coloridos, que trocavam de cor, assim como a menina que a acompanhava. Ela se virou e perguntou, e dessa vez, conseguiu falar:

– Que lugar é esse?

A menina colorida sorriu e balançou a cabeça; seus olhos brilhavam como os anéis de sua mãe. Mas quando a menina de olhos de anéis respondeu, não dava para ouvir sua voz, era como se a voz dela fosse uma música que tocasse em sua cabeça.

“Aqui é para onde eu trago as crianças que não querem mais chorar.”

Ela olhou ao redor, e viu as luzes do sol piscarem, coloridas no céu. Viu as crianças brincando no meio das flores e dos doces, e quis se juntar a elas. Não precisava mais chorar, a outra menina disse. Ali não teria gritos, só música.

E na sua cabeça, tocava aquela música. Da menina voando no céu.

A menina deu um passo para frente, quis correr, mas foi impedida. Então viu a menina de olhos de anéis à sua frente, só que seus olhos estavam como pedras pretas e seu cabelo tinha ficado muito escuro.

Ela recuou um passo, assustada.

“Você não pode ir… antes de me pagar um preço.”, a menina de olhos de anéis disse, e sua voz não parecia mais como música.

– E o que eu tenho que pagar? Eu não tenho dinheiro! – ela quis chorar, estava ansiosa para correr para os jardins e mergulhar em um pavê de chocolate branco. Será que teria que ir embora?

A menina de olhos de anéis não respondeu nem com palavras na cabeça. Ela apenas apontou para o coração da menina. Era aquilo que ela queria.

Só que ela não entendeu. Como poderia dar seu coração?

Ela nem precisou perguntar. Ouviu a voz da menina de olhos de pedra negra em sua cabeça.

“Você me dá seu coração, e fica aqui para sempre. Não vai precisar chorar, porque não vai ter ninguém mais para se importar. Ninguém que lhe machuque.”

Então o cabelo da menina mudou de cor novamente. Ficou azul, e ela sorria com o calor do sol de novo, e mostrou tudo o que ela estaria perdendo se não aceitasse a proposta. Montes de caramelos, estradas de bombons, rios de refrigerante, flores de açúcar.

“Eu quero seu coração.”, a menina repetiu. E apesar de ter os cabelos coloridos novamente, sua voz não conseguia mais ser música. A única música que tocava na cabeça da menina era aquela que seu pai lhe cantava toda noite.

Mas ela não queria deixar de se importar com sua mãe e seu pai.

Ela se lembrou da primeira vez que brigou com sua melhor amiga na escola. E nunca mais queria falar com ela. Só que sua mãe disse que isso não era verdade, que ela sentia falta da amiga, e que não era amizade se não tivesse briga de vez em quando, se não chorasse de vez em quando.

Sua mãe também disse que mesmo quando ela brigava com ela por alguma coisa errada que fizesse, e mesmo que brigasse com seu pai às vezes, nunca deixaria de amá-los. Ela fazia isso porque se importava.

Porque se importava…

A menina não queria deixar de se importar com as pessoas. Mesmo que chorasse.

Então ela nem precisou responder. Apenas mexeu a cabeça de um lado para o outro, e viu os olhos da menina virarem pedras vermelhas, que pareciam pegar fogo. Ela primeiro recuou mais alguns passos, tímida, então assumiu todo o medo que sentia e começou a correr.

E viu os doces derreterem ao seu redor, ficarem escuros, pretos, e o sol não estava mais amarelo sorridente, e sim vermelho, como se estivesse zangado. Ela gritou e correu, correu o máximo que suas pernas tão pequenas conseguiam correr, e sentiu um bafo quente em sua nuca, e um grito horrível…

E correu…

Até que sentiu um aperto e alguém a abraçando. E as lágrimas de sua mãe eram quentes. Muito mais quentes do que qualquer sol, ou qualquer menina de olhos de pedra.

– Minha menina… – ela repetia sem parar, chorando e rindo. – Não precisa mais chamar a ambulância, ela está viva!

Então seu pai entrou no quarto, e pegou-a nos braços, também chorando e sorrindo, fazendo-a voar como se estivesse em um céu de diamantes.

E ali, sentindo o calor de seus pais, a menina estava feliz. E agora entendia que não tinha problema chorar.

Não se as lágrimas fossem de amor.

O que acharam? Medo! >.<

Até mais, prometo voltar logo!

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Comments
4 Responses to “Idéias que entram sem pedir licença”
  1. Ana disse:

    Adooorei!!!!!!!!
    Tudo mesmo, desde a briga, o mundo colorido e a mensagem por trás da história.

    Sempre que houver coisa nova, estarei por aqui bisbilhotando 😉

    Bju =D

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  2. Melissa disse:

    Você é o King de saias. hahahahaha

    Adorei! Muito bem escrito e principalmente, bem caracterizado. Seus personagens conseguem ser fortes em poucas palavras e isso é essencial.

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    • Karen Alvares disse:

      Oh meu Deus, agora eu estou vermelha aqui. King é meu mestre! *___*
      Fiquei super feliz que você gostou, Mel! Uau, obrigada!
      Quero ler mais coisas suas!!!
      (ps. depois que respondi aqui acabei de ver que você postou seu conto no fórum!! AHHHH vou ler AGORA)

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