Ficção – faz sentido?

Por Karen

Ufa. Um tempinho longe daqui. Resolvendo os problemas da vida real. Agora sim posso voltar tranquilamente à ficção. Até é engraçado dizer isso, porque hoje mesmo vi no ótimo Quotes4Writers algo que dizia assim:

“The difference between fiction and reality? Fiction has to make sense.” Tom Clancy (Born 1947) Best Selling Novelist

Ou seja,

“A diferença entre ficção e realidade? Ficção tem que fazer sentido.” Tom Clancy, nascido em 1947.

Isso é um pouco engraçado sim. Quando você está escrevendo, tem que colocar sentido no que fala, fazer o leitor comprar a história, ou melhor dizendo, acreditar nela. Só que muitas vezes a nossa vida de verdade aqui fora prega peças na gente, encontramos pessoas que não fazem sentido! Situações… fora do comum, que não dá para entender. Enfim, mas parando de divagar…

Falei no último post que ia falar de uma personagem que conheci, a Guadalupe. Na verdade, depois dela, acabei conhecendo mais dois (e além deles, uma cachorra! Há!).

Sobre a Guadapule, acho que ainda não consigo dizer muito sobre ela. Somente que ela é uma personagem vermelha… muito vermelha. E tem uma história triste para contar.

O outro que eu conheci é o Lipe. Conheci também mais uma menina e uma cachorra, mas delas eu falo mais tarde. Essa é uma história de fantasia, de sonho – literalmente, meu marido sonhou com ela e eu peguei emprestado! – e olha que eu sou difícil de ter idéias para essas coisas. Bem, mas deixa o Lipe falar por si mesmo.

Uma bela noite para quem fica.

O alarme do despertador tocou insistentemente naquela manhã poeirenta de terça-feira, exatamente como tocava em todas as manhãs, pontualmente às seis horas. E assim como fazia todos os dias, Lipe enfiou a cabeça por baixo do travesseiro, resmungou, e tentou dormir novamente.

– Acorda, Lipe… – o menino sentiu um beijo no rosto e seu corpo sendo balançado lentamente. Aquilo só dava mais vontade de dormir. – Acorda, filho, hora de ir pra escola…

– Só mais um pouquinho, manhê…

– Você vai perder a hora. E o café da manhã… – algo despertou no cérebro do garoto ao ouvir “café da manhã”. – Puxa, eu vou ter que comer aquele misto quente inteirinho, e também todo o café com leite… sem contar o pedaço de bolo de chocolate.

O garoto sentou na cama, piscando loucamente, os fios de cabelos castanhos apontando para várias direções. Era só falar de comida, que Lipe despertava de qualquer sono, parava de fazer qualquer coisa, aliás, era esse o motivo pelo qual ele sempre perdia grande parte do que diziam os professores, por pensar mais no almoço, do que na aula. Sua mãe costumava dizer que não havia limites para o estômago de seu filho, que ele era capaz de atravessar oceanos em busca de comida.

Na verdade o máximo de oceano que ele tinha cruzado era mesmo a travessia da balsa Santos-Guarujá, para comer pastel, sorvete e um monte de besteiras na praia.

Infelizmente, ele foi obrigado naquela manhã a tomar banho e colocar o uniforme azul e branco da escola municipal antes de comer qualquer coisa. Pelo isso menos serviu para acordá-lo de vez, apesar de muita reclamação.

Não havia muita coisa a dizer sobre Lipe, ou pelo menos era isso que ele pensava. Ele tinha onze anos – mas estava para completar doze, dali a dois meses, em janeiro, nas férias. Aliás, ele adorava fazer aniversário nas férias, não tinha escola, era verão, podia ir na praia, tomar muito sorvete, bolo gelado, comer muito sanduíche e tomar refrigerante. O que mais poderia querer?

Enfim, Lipe era um menino comum. Ele estudava na escola municipal, perto da sua casa, era magrelo (apesar do tanto que comia – sua mãe dizia que só podia ser verme ou um vácuo no estômago) e estava espichando bastante. Era um dos meninos mais altos da sua sala. E como a maioria dos meninos na sua idade, detestava estudar, principalmente para as provas.

– Você estudou para a prova de matemática, filho? – a mãe perguntou, servindo a ele o tão esperado misto quente e o café com leite.

De repente o pão não estava mais tão gostoso.

– Ai, mãe…

– Ai nada! Estudou ou não estudou?

– Estudei… – ele tossiu e se engasgou um pouco com o leite, como sempre fazia quando mentia para a mãe. E pior é que ela era bem inteligente, e sempre percebia quando ele mentia, mesmo que fosse só um tantinho. – Um pouco.

– Ai, Felipe, você não se emenda, né? Só quero ver essa nota. Não devia ter deixado você ir na excursão.

– Ah, não, mãe, eu vou tirar uma nota boa! Eu quero ir, todo mundo vai!

Ela resmungou alguma coisa sobre ficar sem comer pizza e sanduíche por um mês se ele ficasse de recuperação, o que fez Lipe tremer. Sua mãe Elena era bem firme quanto a promessas. Principalemente quando ela as fazia chamando-o pelo nome que tinha, e não pelo apelido. Lipe a achava bem bonita, mas ela era sua mãe e não poderia achar outra coisa. Era estranho que ela não arrumasse namorado (seu pai tinha morrido quando ele era bem pequeno), mas ela dizia que tinha que criar Lipe primeiro, depois pensava nisso. Ele não tinha avós, nem tios. Eram apenas ele e sua mãe.

No final, ela deixou que o menino fosse na excursão, mas continuou insistindo que cortaria as besteiras por tempo indeterminado se aquela prova de matemática resultasse em recuperação – e sua mãe lembrou disso até mesmo quando o deixou na porta da escola antes do trabalho. A excursão seria na última aula (bem antes do almoço), a aula de história. Não era bem a aula preferida de Lipe, mas pelo menos eles iriam sair da escola e visitar algum lugar diferente da cidade.

A primeira coisa estranha do dia aconteceu quando Lipe entrou na sala de aula, afobado, já que estava atrasado. Ele tinha ficado de novo trocando figurinhas com os amigos antes de bater o sinal, e só tinha subido para a sala quando a inspetora tinha passado reclamando com os garotos. A classe já estava cheia, mas por sorte, o Professor Ivanildo, de matemática, ainda não tinha chegado para dar a prova.

Só que tinha uma menina nova na sala, que Lipe não conhecia. Ela estava sentada na última carteira, da última fileira, bem perto da janela. E a menina era muito esquisita: tinha os cabelos muito pretos, e diferente das outras meninas da sala de aula, eles estavam tão despenteados que mais pareciam com o cabelo de Lipe quando acabava de acordar. Aliás, eles pareciam que nunca tinham visto um pente na vida. A menina usava brincos redondos, bem grossos, que brilhavam de doer os olhos. E não eram só dois não, eram vários, na orelha toda. Ela usava o uniforme da escola, mas ao invés de tênis, calçava botas longas, sujas de o quê mesmo era aquilo… Barro? Areia? Como tinham deixado ela entrar assim na escola, sempre reclamavam dos meninos sujos e suados depois de jogar bola!

Só que o mais esquisito de tudo era que a menina não parava de encarar Lipe. Ela tinha olhos bem pretos, mas penetrantes, e ria de um jeito que no mínimo arrepiava a espinha.

Anúncios
Comments
15 Responses to “Ficção – faz sentido?”
  1. Lucy disse:

    Adivinha onde eu linkei seu blog… hahaha
    E é isso mesmo, se vc quer que as pessoas leiam seu texto, tem que botar fé no que tá escrevendo, casar todos os diálogos, toda a trama. =D

    Bjos!

    Curtir

  2. Ana Lúcia Lima disse:

    Oi amiga, não sabia do seu blog…
    Fico muito feliz por ver, aos poucos, você realizando seus sonhos. Minha admiração por você cresce cada vez mais, pois enquanto a maioria das pessoas segue a vida que o mundo lhes direciona, você corre atrás dos seus sonhos, com os pés no chão e sem se acovardar.
    Há 6 anos mostrei a você um texto e descobri a grande escritora que é. Perto ou longe, sempre estou torcendo pelas suas conquistas.

    Beijos da sua madrinha =D

    Curtir

    • Karen Alvares disse:

      Oi Aninha!
      Poxa, que comentário lindo, você e suas palavras sempre me emocionam… Lembrei da gente antigamente trocando textos e não contando para ninguém o que fazíamos… 🙂
      Sempre estarei pensando em você e também torcendo por ti.
      Beijos!

      Curtir

  3. Karla disse:

    Nossa adorei a história, já estou até imaginando no que isso vai dar.
    Beijos maninha.

    Curtir

  4. Vania disse:

    Dona Parceira Karen Kakazinha, pode tratar de mostrar mais disso porque não é justo atiçar a nossa curiosidade dessa forma e parar de repente! Como eu vou dormir agora?!?

    Curtir

    • Karen Alvares disse:

      Ah!!! hahahahahaha
      Também não acho justo, mas eu não tenho muito mais do que isso por enquanto, também preciso me contar mais da história!
      Mas fico tão feliz que você gostou, que você nem sabe! =)

      Curtir

  5. Melissa disse:

    Você é super talentosa! Eu fico cada vez mais admirada.

    Curtir

  6. Thierry Grima disse:

    Ah!!! Sempre deixando aquele gostinho de quero mais no fim da história mocinha! Já estou ansiando pela continuação!

    Parabéns, você continua escrevendo maravilhosamente como sempre!

    Curtir

  7. Nivia disse:

    Não passei por aqui antes, embora soubesse do blog, porque queria ler com carinho e atenção. Você não merecia minha leitura dinâmica com mil trabalhos abertos e um software pra programar. ^^

    Que coisa mais fofa você escrevendo suas impressões, e ainda por cima, trechos de originais!!! *-*
    Lipe sem vergonha. huahuahuahuahua Adorei o garotinho! Pelo jeito, bem arteiro, mas de um coração enorme – e estômago. rs Povo em fase de crescimento que come desse jeito e não engorda. Se isso também é sorte genética, só mais tarde pra descobrir. xD

    Adorei, de verdade. Continue sempre! Porque a ficção tem que fazer sentido, e poucas pessoas conseguem fazer isso dando um toque especial a essa lógica. Ela sozinha não sobrevive. Você, sem dúvida, já captou isso, mamys.

    Beijos!

    Curtir

    • Karen Alvares disse:

      Nik, sua querida! Obrigada por vir aqui, ler e deixar esses comentários atenciosos e fofos.
      Fiquei feliz que gostou do trechinho dessa história. Esse povo que come e não engorda dá bronca, né?! hahaha
      Obrigada pelas palavras fofas, menina! Espero que continue sempre voltando aqui quando puder!
      Beijos!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: